14.3.11

o mundo nas tuas mãos

Penso numa música. Penso. Penso em Foge Foge Bandido quando penso em Lisboa, penso sempre em Lisboa por aquela letra do Manuel, eu sei que o Manuel até nem é de Lisboa, mas aquela música diz-me tanto dessa cidade. "A chuva molha a minha roupa, os carros não param de gritar" e lá descia eu a rua, os sempre 10 minutos a descer a rua, e às vezes chovia mesmo, e eu de Vans molhados, e os carros passavam, e passavam os autocarros, e era um cheio típico, tão típico, que nem o sei descrever, que nem o sinto mais, nem nunca mais o senti. "Convidando-me para morrer, eu procuro não olhar" e eu nunca olhava, e descia a rua, e ouvia a voz do Manel, e baixava os olhos, porque não queria olhar para os carros que passavam, nem para as pessoas que passavam, nem para quem passava, mundano, enquanto eu descia a rua, afinal não havia nada ali, naquela rua que me despertasse a atenção, uma paragem de metro, e a casa onde eu vivi, pouco mais, talvez outros dois sítios de interesse e pouco mais, muito pouco mais. "desse eu brilho à minha estrela, não teria de me esconder" e eu perguntava-me pelo brilho, onde estaria o brilho? e descia a rua às sete e meia da manhã já estava a descer a rua, uma hora antes de ter acordado, e descia a rua a pensar no caminho, e o porquê do caminho, e o ter querido estar ali com tanta força toda a minha vida, e depois não saber sequer onde tinha o brilho, onde o conseguiria, onde o teria perdido, e as sete e meia da manhã descia a rua, baixava os olhos, e ouvia esta voz a dizer-me sempre o mesmo, mas sempre diferente, em cada descida de rua; "mas a chuva nas minhas mãos, lembra-me que vou morrer" - e morria, sempre um bocadinho mais, e morri tanto, mas renasci tanto, levantei-me tanto, e fui tanto, e fui tudo o que podia ter dito, e não houve um segundo sequer daquela cidade que eu não tivesse aspirado, e não tivesse erguido o olhar ao seu esplendor, e não tivesse consumido em bruto toda a sua beleza, e estava cheia tão cheia de tantas coisas e tão poucas coisas, parece que quando temos tudo nunca temos nada, eu parecia-me sempre isso, até mesmo quando me perdia em Lisboa, aquela minha Lisboa que é só minha, porque a que eu conheço é só minha cá de dentro, o mundo próprio que fui criando, com os meus sítios preferidos, os meus, os que eu descobri, ninguém mos disse, nunca ninguém mos mostrou, e são meus, meus e de todos, mas só meus, "meu amor está perto" e a minha Lisboa sempre tão bela, sempre tão pura, e tão velha e tão massacrada e tão minha, sempre tão minha, que não havia sítio mais bonito no mundo, e não há mais nada no mundo tão bonito como a minha Lisboa, sair na estação do chiado, e depois ir por aí, umas vezes até ao tejo, outras vezes até ao bar, outras vezes até à beleza duma cidade inteira, e "vejo-o correndo para mim", e Lisboa sempre tão magnifica que me dava sempre tanta vontade de chorar e não havia sítio onde me sentisse melhor, Lisboa entristecia-me numa tristeza bela, profunda, forte. A tristeza mais pura de todas, "só que eu não sou certo" e em ti, nela, questionei-me tanto, e tanto me perguntei de mim, e tantas perguntas me voaram do alto do Camões sem olho, e tantos pensamentos me ocorreram a caminho de Alfama ao som duma guitarra de rua, às vezes. "Vejo-me correndo para o fim" - e tanto que Lisboa me fez chorar, e me fez sorrir, e me deu tanto que não me podia ter dado mais, e tirou-me tantas outras coisas, e tanto que em Lisboa e com Lisboa fui. "Vem morar na tua casa, a pobre nunca te viu ficar, chegas sempre com um dos pés, pronto para não entrar" e depois pensava sempre que era aquilo de casa, e onde seria a minha? e por não achar respostas vim-me embora, à procura de uma casa que fosse minha, ou somente à procura de uma casa, talvez somente uma casa, e depois quando olhei Lisboa até dali a muitos meses pensei que ia conseguir dizer-lhe de facto adeus por muitos meses, dizer adeus à minha Lisboa, à minha Lisboa. "meu amor está perto" e estava tão longe e depois fiquei tão longe, tão longe já que nem a memoria me podia lembrar, já e já nenhuma memória me lembrou já, "vejo-o correndo para mim" e depois fui eu que corri, para mim, para mim, e corri tanto e cansei-me tanto, e cheguei tantas vezes, e disse adeus por uns meses, a uma paixão tão grande, uma amor tão nefasto e depois estive tão longe dessa Lisboa que amei tanto, que amo ainda tanto, e depois estar longe foi a melhor coisa que fiz. "Vejo-me correndo para o fim". E depois pensei que de facto uma música que me faz lembrar Lisboa é esta, porque sim.

1 comentário:

  1. o teu blogue está lindíssimo, bem como todos os textos (:

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