18.2.14

Despeço-me de ti como se fosse a última vez. Sento-me à beira da cama e olho para o teu corpo adormecido ao longo dos poucos metros que nos separam; há uma distância impenetrável entre nós. Olho para ti e sorrio-te, mas ainda não me vês. Deverás amar-me à tua maneira, penso. Ao de leve, a meio gás, a cinquenta por cento. Não te censuro; o amor não está para todos. As tuas mãos fazem-me perguntas enquanto percorrem a minha pele, vou-te respondendo com o verde dos olhos que sempre foi demais para te aprisionar. Há uma distância impenetrável entre nós. Fecho os olhos, não quero que te assustes com o espelho da minha alma. Leio-te com eles fechados e sabes-me bem. Quando me olhas de novo já não estou lá, perdi-te no meio da minha confusão. Deixo-te ir. Quero-te livre, nu, agarrado ao corpo que já não é meu. Despeço-me de ti como se fosse a última vez. Pressinto já nas entranhas o vazio da tua ausência enquanto ainda estás ao meu lado. Não há dor que arda mais do que a de ter por perto sem estares ao pé de mim. Há uma distância impenetrável entre nós. Não sei quem nos fez próximos, no equívoco de nos fazer unos. Quando foi que te amei pela primeira vez? Tento esquecer-me das memórias que juntámos enquanto te digo adeus. Não sei quando te voltarei a ver. Não sei se te voltarei a ver. O meu peito é já só dor. Tu não pressentes esta minha fragilidade. Abres os olhos e sorris-me como quem me cumprimenta. Torno-te o sorriso enquanto te oculto as lágrimas que não chorarei. Há uma distância impenetrável entre nós. Jamais saberemos conquistar-nos, o que fazer um com o outro; inflexíveis à realidade de cada um. Amar-me-hás à tua maneira, eu amar-te-ei à minha. Despeço-me de ti como se fosse a última vez, de repente és tão vulnerável. Abraço-te mas já não estás, estou só, à beira da cama onde me deitaste. 

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