não é preciso perfumes caros, nem sapatos, nem roupa, nem telemóveis, sinceramente, não é preciso nada da moda, nem nada comprado nas melhores lojas. porquê que ao invés disso nunca ninguém me colou um post-it amarelo na porta do frigorífico a dizer "Parabéns"? porquê que das 100 pessoas que me mandam mensagens pelo Facebook, nenhuma delas nunca apareceu à minha porta com uma vela em cima de um pastel de nata? porquê que em vez de me comprarem coisas não me dão apenas um abraço e me sorriem? sinceramente, não preciso que me comprem nada, nem que me mandem mensagens por obrigação (se não sabem o dia dos meus anos, eu não fico chateada) isso pouco me preenche, era melhor que me dessem a mão e dissessem estou aqui contigo a fazerem-me uma grande festa para ficarmos todos bêbados, em que ao fim da noite já ninguém se lembre qual o motivo por que bebe... Este ano, gostava só de um post-it amarelo...
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31.1.12
12.11.11
Tempo do Tempo
Eu não sou do tempo em que os senhores abrem a porta para as senhoras passarem. Não sou do tempo em que os senhores se vestiam de fato e chapéu alto para irem ao teatro. Não sou do tempo em que os senhores formavam grupos nos cafés e falavam sobre a liberdade e as revoltas independentes. Não sou do tempo em que os senhores cortejavam as senhoras atenciosamente e lhes escreviam cartas, até. Não sou do tempo em que se pensava nas coisas por opressão ao pensamento. Não sou do tempo em que as senhoras aprendiam costura e os senhores iam para a Universidade. Não sou do tempo do espartilho, nem das saias compridas, nem dos bolos ao domingo. Eu, sou de outro tempo. De um tempo cosmopolita, moderno, dizem. Um tempo que tem tudo para dar certo: já não se abrem portas às senhoras pelo contrário, lançam-se todos a ver quem entra primeiro onde quer que seja. Sou de um tempo em que as gravatas e os chapéus ou são em prol do estilo ou denominam uma elite. Sou de um tempo moderno, em que as revoltas são feitas a partir da cama ou do sofá através de um teclado. Sou de um tempo fugaz, em que não se presta atenção a nada nem se escrevem cartas nem se corteja nada, ninguém, coisa nenhuma. Tudo é feito em massa e como tal, se algo não presta compra-se outro. Tudo se compra, nada se possui. Eu, sou de um tempo do futuro, em que os pensamentos nas cabeças de cada um não são unos em nada, acredito, que sou dum tempo do medo; um medo interior, arrasador. Eu, sou de um tempo em que enquanto mulher sou livre de ir à universidade e outras mulheres como eu vão à universidade, é-nos hoje possível este sonho do conhecimento no domínio feminino. Mas são nessas mesmas universidades em que os alunos são apenas meros instrumentos mecânicos, produções em massa irrelevantes para o que quer que seja. Ensinam-nos por velhos métodos, sempre sem verbas que nos aprofundem o conhecimento e sempre com os mesmos contextos. Eu sim, sou de um tempo moderno, este tempo tão moderno que já esqueceu todos os valores possíveis. Onde não se abrem as portas às senhoras para elas passarem mas ao invés, as maltratam e as desrespeitam (porque somos todos iguais?) - há diferenças entre nós - sou de um tempo do mais moderno que há: as mulheres, podem agora usar calças, calções, mini saias e saltos altos. E ainda assim estão mais vazias do que nunca. Não se constrói nada, nem famílias, nem valores, nem paixões às coisas. As pessoas, jogam-se fora umas às outras todos os dias. E embora as mulheres já não usem espartilho, continuo a vê-las ao fogão todas as noites, continuo a vê-las serem mães e a fazerem bolos ao domingo, ainda que usem calças de ganga e saltos altos. São melhores, mais independentes, com mais conhecimentos. Sim talvez, mas os filhos em vez de beijinhos de boa noite, têm jogos de computador e em vez de abraços de bom dia, têm roupa nova. Já ninguém sobe ás árvores e come flores amarelas, porque subir às árvores pode fazer infecções nos joelhos e comer flores amarelas tem micróbios. Eu, sim, vivo num tempo moderno. Posso sair à noite, beber, conversar, dançar, usar mini-saias, calções e saltos altos, posso pintar os lábios de vermelho e beijar quem quiser, mas depois, ninguém me abraça nem me abrem a porta quando quero passar. Eu sim, vivo num tempo moderno, num mundo moderno onde já ninguém sabe o que é gostar, onde todos desaprenderam os valores mais básicos a uma sociedade. E ainda assim, eu que vivo num tempo moderno, se calhar até trocava os saltos altos pelo espartilho se isso me desse mais conforto às emoções...
10.10.11
«Nunca deixes de escrever» - oiço-os dizer centenas de vezes - nunca deixes de escrever como se as palavras fossem finitas, como se não fizessem parte do meu oxigénio; um oxigénio que não sendo o que respiro é o que me faz viver. «Nunca deixes de escrever» como se me fosse possível deixar de o fazer, como se me fosse possível, ainda que quisesse, deixar de escrever! «Nunca deixes de escrever» dizem-me com olhos esperançosos, com sorrisos nos lábios, com sangue quente nas veias, esperando de mim coisas que nem sequer eu espero; obras, quiçá, fabulosas, palavras quiçá fenomenais, inspirações quiçá invencíveis. «Nunca deixes de escrever» dizem-me quase sempre. Não sabendo sequer quais as mágoas e os males estares e as dores e as angústias que me levam à escrita. Sem saberem quais as tragédias do meu viver e da minha cabeça. Sem me conhecerem o dentro, pensando que me conhecem o fora quando me dizem «nunca deixes de escrever». Sem saberem que me sofro e que as minhas palavras são repletas de um vazio oscuro. Sem saberem que choro e as minhas palavras são um poço de desesperos constantes, de um coração inquieto, de uma cabeça desordenada sempre em constante exaltação. E depois dizem-me para nunca deixar de escrever, esperando de mim as coisas mais extraordinárias, acreditando que daqui, das minhas palavras, sairão quiçá frutos, quiçá os melhores, quiçá inesquecíveis. E eu, rio-me perante isto. Rio-me quando me dizem «nunca deixes de escrever». Rio-me, porque não sabem que me falho constantemente, rio-me porque me pensam deveras capaz de escrever coisas, sobre coisas, não sabendo que sou somente uma máscara do meu próprio desassossego. Não sabendo que as noites as passo em claro com o medo a assombrar-me a porta, não sabendo que tenho medo de dormir porque tenho medo de pensar. Não sabendo disto dizem-me sempre «nunca deixes de escrever» e eu rio-me sempre e digo-lhes a sorrir para descansarem as almas felizes. Não deixarei de escrever, mesmo que queira, a mágoa da escrita é muito mais pesada que a felicidade do triunfo, não, não deixarei de escrever, nem me tornarei nenhum Pessoa do meu tempo, nenhum Torga do tempo dele, nenhum Almada, nenhum Peixoto, não me tornarei nada, mas não, digo-lhes a sorrir com olhos tristes, aos que ainda têm esperança, não deixarei de escrever...
16.8.11
Da terra da rainha trouxe comigo...
... as piores recordações e, algumas roupas novas para o armário.
De Inglaterra trago as piores recordações. É verdade. Será pecado dizer isto?! Ofender as almas dos amantes daquele país frio, morto, e sem paixão? - Não sei. Mas tenho-o bem acente cá dentro. Um sentimento de recusa que não posso negar. Nem poderia, pois todos os dias ele faz questão de me assolar o mais recôndito das entranhas. Serei então uma usurpadora, não mereço o ar que respiro, porque simplesmente o el dourado de tantos corpos, a mim não foi mais que um brilho apagado feito em cinzas, como o céu cinzento que pairava na minha cabeça (quase) todos os dias?
Vem-me o cheiro de Inglaterra à cabeça, e essa memória dá-me náuseas, oiço a pronúncia britânica falada nas ruas e esse som dá-me nojo, mas o pior, o pior é olhar para trás e recordar todas aquelas caras brancas com sorrisos cínicos a chamarem-me o meu nome, e isso sim, é um pesadelo que me tira o sono. Estou traumatizad(íssim)a. E não saberei se algum dia vou combater este pesadelo. Inglaterra fez-me mal, um mal medonho, um mal asqueroso, um mal desumado. Inglaterra arruinou-me, o espírito, a alegria, os sonhos.
Há quase um ano. Verdade, há quase um ano, ia Setembro no fim, eu no fim de Setembro vejo-me num mundo novo. E agora desemerda-te - primo muito pelos meus antepassados, verdade. Quais conquistadores dos sete mares, corajosos, que se envergavam nas piores aventuras para orgulhar a pátria, portugueses, claro. Sangue do meu sangue, do vosso sangue, do nosso. Conquistadores, maus, nobres e vis. Mas com honra no espírito e empenho no corpo. Vale-me hoje o bem de saber-me portuguesa, e, independentemente de toda a conjura falsificadora e falsificada, dos nossos dias, orgulho-me de o ser, portuguesa, digo - Ora eu, pobre criatura ingénua, achava-me no mundo dos mundos (tivesse sido mais espera e tinha-os topado logo, quando roubaram o culto do chá à princesa portuguesa que se casou na Inglaterra, a quem essa sim, se devia dever todo o poderio do chá, que os cabrões furtaram como deles, falsos), e bem que engoli os sapinhos, todos, um por um, amargos, azedos, ruins. E bem que me intoxicaram, tanto, que espero nunca mais lá voltar. Nem para as compras que é ainda o que há de positivo naquele país. Voltar a Inglaterra depois deste fracasso de ano, só com uma faca apontada ao pescoço. Lamento imenso e perdoai-me os apaixonados, mas não há pátria como a minha, portuguesa claro. (e não, não sou nenhuma emigrante com a t-shirt da selecção que vem cá passar férias e volta ao estrangeiro, eu sou portuguesa, do portugal sujo, do das ruas podres, dos drogados a pedirem dinheiro na rua, dos putos bêbados no bairro, dos músicos com as guitarras, dos fadistas de alfama, dos cineastas que não ganham para mandar cantar um cego e cujos filmes nunca saiem dos bares incógnitos que passam curtas à noite, dos estudantes com as capas pretas, das minhas praias do algarve, das casas brancas com chaminé, da Casa, dos artistas, dos cafés, da poesia, das obras, do teatro, do Pessoa e dos versos dele e de Lisboa e do Algarve. Sim, eu tenho o amor de ter nascido portuguesa, de amar os poetas que não foram do meu tempo, e as tertúlias que faziam, sim, sou portuguesa, deste portugal miserável que ninguém ama, este portugal apodrecido há centenas de décadas que nunca ninguém arranja, nem sabem. Sim, eu sou portuguesa do portugal feio, que é lindo e me é lindo, e não o poderia ser mais. Eu sou portuguesa na alma, nos olhos, nas mãos, e, se tiver sorte, não voltarei à Inglaterra nunca mais).
- E ainda assim, falar destes sentimentos trágicos é uma guerra perdida, saberiam se o tivessem vivido, como eu, na mesma situação, nos mesmos dias, encarando as mesmas coisas, vendo Inglaterra com os meus olhos e não com outros. Acredito que sim, falar de Inglaterra assim, aos outros olhos que se encantam e brilham, e brilham tanto, sim, não há-de fazer sentido nenhum.
28.7.11
Olá Emília,
Como estás? A vida e por aí fora? Como vai a pele? Os olhos? As mãos? A língua? O corpo?! Ainda consegues falar?! Andar? Correr? De que cor vês o céu? Mostras os dentes quando sorris?! Já caíste dos sapatos abaixo?! Se não, como se cai?!
Olá Emília,
Como estás?! - Tem chovido?! Nevado?! Tovejado dentro da tua cabeça?! - Sim?! - Continua a ler.
Olá Emília.
És uma princesa, acredito sinceramente nisso. Sinceramente digo, com todas as minhas convicções. Sinceramente. Mas, perderam-te o brilho, o mundo, digo.
Olá Emília, falta muito para voares?! - Sim?! - Continua a ler.
Olá Emília, minha boneca de trapos, estás completamente esfarrapada. Quem te esfarrapou?! Porque o fizeram?!
Já não consegues falar. Há quem brilhe mais que tu, querida Emília.
Logo tu que vias o mundo a essa tua maneira, tão tua, tão própria, tentaram, e logo a ti, mostrar-to de outra, não te masses tentando mudar a cor que os teus olhos vêem, ver com outros olhos, que não esses, não faz, sentido nenhum.
Querida Emília, estás longe. E já não te reflectes nas estrelas. Desististe?! - Sim?! - Continua a ler.
Tenho conhecido princesas tão mais qualquer-coisa que tu, tão mais isto, tão mais aquilo, tão mais o outro e todas as outras coisas, e tu, afiguras-te somente assim, nesse teu jeito tosco, alegre, disponível, amedrontado. Nesse teu jeito, próprio, desarrumado e revoltoso.
Minha querida Emília, queres a verdade, desde quase sempre, é a única coisa que procuras, e tem sido a única que não tens encontrado, de tanta coisa que já encontraste. A verdade. Logo essa. Sorrateira complicação.
Tenho pena, querida Emília, tenho pena, mas loucos ainda continuam a amontoar-se nas estantes das salas comuns. E a verdade, essa, tem tantas caras...
Boa Sorte.
17.6.11
Talvez por ter visto um filme muito cheasy, talvez por ser a última vez que te vá ver, talvez por serem as últimas semanas aqui, talvez porque ainda que passes nesta que foi a minha rua, e batas a esta que foi a porta da casa onde eu vivi, não me encontrarás mais encostada à ombreira para te mandar entrar, talvez porque não te irei fazer mais chai, nem cafés, talvez porque não vermos mais filmes no sofá cinzento, talvez porque o gato não me dará mais comichão, talvez porque não haverá mais planos para o fim de semana, talvez porque não haverão mais fotos, talvez porque não haverão mais conversas, talvez porque não haverá mais procura de definições de palavras em línguas que nos são estrangeiras, talvez porque não haverá mais vinho tinto no Pub chique, ou Rosé na sala, talvez porque não haverão mais festas de anos da Francesa no jardim da casa onde que vivemos, talvez porque não haverão mais noites em que me verás bêbeda, ou com frio, ou me darás a mão para um passeio, ou me contarás histórias e me falarás dos tantos países do mundo que já viste. Talvez porque não cozinharás mais coisas que me são estranhas ao paladar, mas não te o são a ti, talvez porque não me ouvirás mais a falar do meu país, talvez porque não me contarás mais os teus planos do próximo verão a escalar montanhas, talvez porque não te rirás mais da minha mochila com insígnias, talvez porque não me mandarás mais mensagens, ou me tocarás no cabelo, ou me dirás que gostas dos meus olhos. Talvez porque não te verei mais beber chá com leite, nem tu te rirás de eu beber café de manhã. Talvez porque nunca mais entraremos neste choque de culturas em que nos deixamos embrenhar... Nós até sabíamos que ia haver um fim, até sabíamos, mas quem é que ligou? Ele esteve (sempre) lá, e está agora ainda mais presente. Mas talvez porque nunca nos importámos, a liberdade era tanta. E agora o fim dorme comigo. Mas eu sorrio-te, do alto da angustia de te dizer adeus, sorrio-te porque me fizeste feliz, e aceno-te para te agradecer, e viro-te as costas para te recordar encostado à mesma porta, à qual tantas vezes também eu me encostei. Tu já não vês, mas parto com chuva nos olhos, e sorrio-te no entretanto, guardarás de mim apenas a fotografia mental de uma partida alegre, jovem, correcta. O resto, só a mim dirá respeito, e tu, terás sempre uma festa da aldeia qualquer onde me viste pela primeira vez...
10.6.11
Promessas de amor, quem as tem?!

Nem nunca sequer me passaram pela cabeça. O amor, aquele, o do Esteves Cardoso, já não é o que era, nem nunca o foi, levo-me a crer.
- Estar chateada com o amor?! - Não, nunca. Como me poderia eu chatear-me com o amor, logo com ele. Não. Com o amor, nunca me hei-de chatear. Com as pessoas, sim, talvez. Com o amor não. Que culpa terá o amor, de ser mal usado, entendido, pouco respeitado? Não, idiotisse seria culpar o amor pelas atitudes do Homem. O amor, nada tem a ver com maus fígados, paciências limitadas ou até mesmo testas franzidas.
Mas isto, pouco até tem a ver com o amor, aquele, o do Esteves. Pouco tem a ver, porque aquele, o amor do Esteves, pouco terá a ver com-nós. Com esse amor, nunca me chatearei, contigo, talvez. Ridículo seria que me chateasse com outra coisa qualquer; circunstâncias, ventos fortes, desamor, amor, trovoada... Porque, tu, ou até eu, é que não estamos em sintonia. Mas estar(mos) em sintonia, nunca sequer me passou pela cabeça.
São coisas. Às vezes sorris-me e está tudo bem, e às vezes sorris-me na mesma, mas não está tudo bem. Se calhar sou só eu, ou se calhar és só tu, na verdade, somos só nós. E sermos só nós já engloba muita coisa. Mas sermos outra coisa qualquer que não nós, nunca sequer me passou pela cabeça.
Mundos diferentes? Sim conheço. É como o amor do Esteves, nunca ninguém o viu, ouviu, ou sentiu (ou terão sentido?!), mas sabem que existe. Eu também sei que existe. Tu, sabes que existe?! Sabemos que existe, mas nunca o sentimos (ou terás sentido? ou até eu, terei sentido?!). Mundos diferentes? - Absolutamente. Olho-nos tantas vezes, e em nenhuma delas encontro pontos comuns (que é isso de pontos comuns?!) - sinceramente, estou-me pouco importando para isso. Mas levar-te mais profundo na alma, ou até, talvez, no próprio corazção, foi coisa que nunca sequer me passou pela cabeça. - Porque?! - Mundos diferentes (mas de mãos dadas funciona(m) bem).
14.4.11
Estou farta de tentar enfiar-me nas calças de ganga que deixaram de me servir porque o meu rabo aumentou, porque as minhas ancas estão maiores. Estou farta de vestir os casacos que adorava e de eles não me apertarem no peito. Estou farta de ouvir os comentários de quem não me vê há muito tempo e me diz "estás mais gordinha" e aquele diminutivo "gordinha" ainda fere mais do que um grande "estás gorda!", estou farta que me olhem e me sorriam com tristeza dizendo-me, estavas tão bonita o ano passado, como tendo pena dos cinco kilos que tenho a mais. E esta tristeza sorridente irrita-me, e enfada-me sabe-se lá de que maneira. Estou farta que as saias não me sirvam, e de me sentir apertada em toda a roupa de há uns meses atrás. Estou farta de tentar esconder isso, e que me falem do verão e dos bikinis. Estou farta dos anúncios da televisão que mostram corpos manufacturados com as colecções promissoras do novo verão. Estou farta de me olharem e me dizerem que tenho as bochechas maiores, estou farta de me sorrirem como se eu fosse a derrotada só porque já não faço parte dos padrões da moda actual, porque não peso 50kg ou porque não sou mais alta. Estou farta desta puta da mania do que é certo, e o que que é certo, eu comer alface o dia inteiro e beber água? Estou farta de ver sorrisos cínicos sobre o meu aspecto só porque o meu rabo cresceu e as minhas mamas aumentaram. Será que ninguém pensa que o "estás mais gordinha" dito por entre um sorriso matreiro magoa o bastante para não nos fazer sentir melhor?! Estou farta destas pessoas de merda, mais a moda e os corpos perfeitos, tou farta de que ninguém aceite os corpos verdadeiros das mulheres, e as critiquem cada vez que têm um kilo a mais. Estou farta de merdas.
3.3.11
se gostas de escrever, o que que estás a fazer em teatro? o quê que estás a fazer aí, suportando coisas que não suportas, vendo pessoas que não queres ver porque te são rudes. se gostas de escrever porque vives em inglês, longe da cidade que mais amas, em troca de nadas? se gostas de escrever porquê que não escreves? e porquê que não te escreves até na alma, até nos dias, até no tempo? se gostas de escrever, porquê que foges? porquê que fugiste dos outros, de todos os outros que também não suportavas, porque te eram rudes e não entendiam o teu espírito, porque fugiste até das coisas que mais amavas, da tua cidade, que nunca foi tua, do teu lenço, do teu português orgulhoso. se gostas de escrever, porquê que nunca mais te sentaste à esplanada, ou à janela, do alto do teu café largo que bebias em largos solvos, onde te dissipavas até ao teu último esplendor. Se gostas de escrever, porquê que fugiste, porquê que foges sempre, e nunca arranjas lugar firme, e uno, e completo para ficar? porquê que nunca ficas, porquê que nunca és inteira em nenhuma parte tua, porquê que te abandonas sempre, e foges, e nunca gritas, porquê que nunca gritas? se gostas de escrever o que que estás aí a fazer, aí onde já nem sequer escreves, porque o tempo te mata, e te mata tanto, e te proíbe e te coíbe de seres, de seres tu, tanto tu, sempre tu por inteiro. e porquê que já não o és, sequer, tu, tu mesma, sequer partes desse teu eu, porquê, se gostas de escrever. se gostas, porquê que suportas tudo isso, num mundo que nunca te há de valorar, e porquê que os teus olhos já não brilham, e já não tens paixões, as paixões que te moviam, e te moviam tanto, e agora já não te movem. se gostas de escrever, porque não sonhas já, e não sonhas já com nada, nem com nadas, e já nem sequer escreves, nem sequer nada, nessa tua lonjura falhada, nesse teu desejo desmedido de viver e se viver é isso, porquê não escreves tu? porquê que te acabaste por te acabar assim, assim, sem mais nem menos, que te aconteceu, que te aconteceu nestes anos? se gostas de escrever, porquê que sempre te achaste falhada, incapaz, inútil, e porquê que conquistaste já tantas coisas, tantas coisas que sequer sabias conquistadas, e porque as deixaste ir depois? se gostas de escrever porquê que estás aí, aí com o resto dos sonhos na cabeça, e porquê que nunca investiste na costura, sim na costura se era aquilo que mais querias depois de escrever? e porquê que já não fazes sequer vestidos, e já não és nada. porquê que perdeste os pontos, e os pontos que te perderam a ti, e porquê que já não és nada do que queres, se gostas de escrever porque enfrentas os palcos onde nunca te poisaste, a medo, sempre a medo. se gostas de escrever porquê que continuas investindo nessa virtude que não tens, porque não tens, porque sabes que tudo é farsa, como tu és farsa, de ti mesma, se gostas de escrever...
27.2.11

Podia dizer muita coisa e escrever como me sinto, mas vou-me resumir: fiz anos ontem e recebi dois telefonemas, um postal do Canadá e uma mensagem. Estou longe é certo, mas não mudei o numero de telefone, no facebook tinha 110 novas mensagens. Concluo que, ao fim do dia, saberei melhor com quem contar. É que quando estamos longe, os pequenos gestos valem mais.
3.1.11
passaram os cabelos; passaram os cortes, as cores, a revolta exterior. iniciou-se a crise silenciosa. sabes o que digo? já pouco escrevo. e agora olho para a minha própria fotografia e o que vejo é um rosto pálido, um sorriso ausente. muito ausente de tudos, sabes? estou vencida "como se soubesse a verdade", eu sei muitas verdades e elas custam muito a passar. amanhã vais trabalhar, e eu vou trabalhar, e seremos mulheres de um tempo que nos fez e nos faz. amanhã não vamos trabalhar porque não temos trabalho, porque nos prezam a juventude, porque não temos vidas, porque somos ainda protótipos em desenvolvimento para que daqui a uns anos alguém ganhe dinheiro connosco. amanhã não vamos trabalhar porque não temos trabalho, porque não produzimos, somos somente um produto em produção, amanhã nada vai mudar sabes? e hoje foi um dia de choros. tentei fazer-me de forte, mas quando estávamos no café, ao abrir a boca as lágrimas começaram-me a correr. e tu bem sabes que eu não sou de choros, nunca fui. e então que me aconteceu? dei parte fraca? não, simplesmente dei parte humana. sabes? chega de me fazer de forte, de engolir mágoas, de engolir lágrimas, de cerrar os dentes e dizer não vou chorar, porque eu não choro. sabes que mais? eu choro. e choro muito, mas acontece que quase sempre choro sem lágrimas, choro por dentro, mas tenho-me vindo a aperceber que chorar por dentro custa mais, hoje, chorei por fora, e depois abraçaram-me, e limparam-me as lágrimas e disseram-me que tudo ia correr bem. e às vezes não corre nada bem, mas ao menos alguém me limpa as lágrimas, e chorar acompanhado soube melhor sabes? e qual é o problema? esta é a minha parte fraca, está aqui, está à mostra, está em carne viva e não preciso de curativos, não preciso de ligaduras, preciso de ar fresco sabes? aquele ar fresco que não sinto desde que aqui cheguei, que as paredes com bolor do meu quarto me roubaram. preciso do ar de algum lugar que me diga que sou bem vinda e que me mostre algum calor e que me abrace com esperanças, que me preencha. sabes que mais? falhei, falhei redondamente, sim, falhei, falhei, falhei, e hoje aqui tenho o grande produto do meu próprio e único e grande falhanço, esta fraca vontade de existir. falhei em tudo, falhou-me o início, falhou-me o desenvolvimento, até a viagem me falhou e depois comecei a chorar que nem uma perdida porque falhei-me a mim própria. e amanhã nenhuma de nós vai trabalhar, tu não vais porque não tens trabalho e eu não vou porque não tenho trabalho. sabes?
19.12.10
Hoje eras para estares aqui comigo, mas não estás. E eu não gosto de estar sozinha em casa. Hoje era para estares aqui e para termos ido ver Londres, e eu até fui a Londres e tudo para te encontrar por lá, e até tinha pensado em percorrer todos os cantinhos daquela cidade contigo, até os que ainda não conhecia, porque era contigo, e eu queria mostrar-te tudo, e descobrir tudo, contigo, e até já tinha feito uma lista na minha cabeça dos sítios onde te ia levar e onde íamos tirar fotografias e onde eu te ia falar daquela cidade tão espontânea, tão viva, tão rápida. E eu até fui a Londres e tudo e até passeei por lá olhando cada rua, cada pedacinho de neve, cada transeunte nas esperança de te encontrar, mas sabia que estavas longe, estavas longe de mim. Não te permitiram voar hoje, logo hoje que eu estive lá há tua espera até ao último esganar, logo hoje que era um tão bom dia para te abraçar, porque é um dia com 9 e é um dia ímpar e era um dia maravilhoso. Hoje foi o dia em que eu te ia encontrar de novo depois deste tempo que já nem sei quanto é, e hoje até passeei por Waterloo contigo ali ao lado, ali tão perto mas tão longe. Hoje foi o dia em que não conseguiste voar até à cidade dos artistas, mas amanhã vais voar, porque as tuas asas são grandes e a tua força move montanhas, eu quero muito que voes, porque quero estar contigo em Casa.
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