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8.9.11

acaba Agosto. Partidas, reencontros, argumentos, conversas, despedidas, abraços, beijinhos, ir, voltar, encaixotar a vida, dizer adeus e olá. Foi forte. Foi quente. Foi devastador.
entra Setembro. Mês que por excelência que sempre detestei. Começavam as aulas, dizia-se adeus a velhas coisas, entravam novas, por norma, o começo das aulas e o reencontro com a rotina, o começar do zero. Este ano porém, as coisas afiguram-se-me diferentes. Olho para Setembro vigorosamente, para as aulas, para a Cidade, para a Casa, para a gente, para os lugares, os Livros, os projetos, os planos. Este ano Setembro lava-me a alma, num novo (re)começo que me apaixona. Na mesma rotina o quotidiano muda, dá voltas, deu voltas, e o começo do mês atrai energias positivas. Se não voei muito alto até agora, pode ser que em Setembro apanhe balanço. De volta a Casa claro e, feliz, essencialmente.

31.5.11

o amor é... chuva

Lisboa, és casa que me acolhe. Embalas-me na mais dura verdade desse sentimento tão lusitano, inexplicável em qualquer outra língua, qualquer outra cultura, qualquer outro brilho no olhar e oco no coração, que não as pobres, as tuas, as nossas, saudades. Da casa, todas as que preservas, das pessoas todas que em ti vivem, dos sorrisos todos que crias. Lisboa, és alma livre, capa negra de um qualquer estudante que em ti brilha, em ti chora, em ti cresce. Lisboa, és mãe de filhos; poetas, pensadores, artistas, quem em ti se inspiram, e qual outra inspiração de qualquer outra parte do mundo, aos teus pés nada vale. Lisboa. Sinto-te a falta como sinto necessidade de respirar, e se o ar é tão podre. Sinto-te uma falta jamais preenchida por nada de outro sítio qualquer, és tu que trago ao peito, eternamente. Quero correr para ti, mas não quero abandonar os calafrios da pele que encontrei, quando as borboletas me voltaram à barriga. Quero-te passear nas entrelinhas, viver contigo os pôr-do-sol mais lindos que vi, quero voltar ao teu cheiro inigualável que me faz tão feliz, mas sinto-me entre duas paredes e quatro espadas. És tu Lisboa a quem eu pertenço, mas vim encontrar aqui almas que me fazem voar. Como hei-de viver sem ti Lisboa? Não, coisa que nunca me há-de passar pela cabeça, mas como hei-de viver sem as borboletas? Fazes-me viver neste paralelismo interdito que nunca se virá a resolver por bem. Não sou de cá, nem nunca os estrangeiros serão teus. Os outros, não te compreendem a essência, tudo o que motivas, tudo o que envolves, tudo quem és. Não Lisboa, eles não te hão-de compreender, não como nós, não como uma criança que em ti brinca, em ti salta, em ti, é feliz. Eles não compreendem, o porquê de te amarmos, mas nós amamos-te em toda a tua forma, com toda a nossa verdade. Existir longe de ti, não, não faz sentido.

28.4.11

estou ao som de Regina Spektor e gosto. à parte disso, preenche-me o sossego da casa onde voltei; o vazio da cadeira onde me sento, o branco da casa onde me poiso. isto do mudar de país tem muito que se lhe diga e saber retirar disso todo o sumo também. lá no meu país tinha laranjas, aqui não tenho, mas tenho bagels e no meu país não. há sempre o lado reverso da moeda, tiram-me umas coisas, dão-me outras, ou, as que não me dão, tento eu apanha-las. Ora pois. Aqui tenho mais sossego (ganho no sossego); não há os amigos a telefonarem para cafés, nem para a baixa, nem para vinho tinto, (não há os amigos), ao invés, telefonam-me para acabar os trabalhos de teatro, e para reuniões sobre os direitos do aluno; bebo menos café, falo mais inglês. compensa. Ao menos acordei com sol e menos frio do que outrora, nada mau, e o meu quarto tá mais português, a mala da viagem ainda nem desfeita tá; não sou preguiçosa, estava só cansada. Ao menos aqui escrevo mais; tenho mais tempos mortos (ninguém me telefona para cafés). Mas depois quando tomar banho, embrenho o cabelo no champô do meu país, para recordar o cheiro do cabelo português, já que a língua ficou lá longe e isto é tudo estrangeiro.

24.3.11

Voltar é estranho: os restos do que passou chegam até a perturbar-me de novo, mas torna-se uma perturba doce; nostálgica; saudável. Os cheiros estão tal e qual, iguais(inhos). Tudo mudou, mas manteve-se tudo igual, na penumbra da minha partida, como da minha volta. É estranho voltar; abraçar de novo o que com tanta força quis deixar para trás, mas que agora acolho com ternura. E nenhuma das coisas se moveu do mesmo sítio, nem o meu rasto; nem o meu rasto se apagou. Voltar é estranho, mas é tão bom, tão reconfortante, tão humano, que à data da partida levarei de novo Lisboa agarrada à mágoa que vai comigo, para depois voltar, cheia de outra mágoa diferente...

14.3.11

o mundo nas tuas mãos

Penso numa música. Penso. Penso em Foge Foge Bandido quando penso em Lisboa, penso sempre em Lisboa por aquela letra do Manuel, eu sei que o Manuel até nem é de Lisboa, mas aquela música diz-me tanto dessa cidade. "A chuva molha a minha roupa, os carros não param de gritar" e lá descia eu a rua, os sempre 10 minutos a descer a rua, e às vezes chovia mesmo, e eu de Vans molhados, e os carros passavam, e passavam os autocarros, e era um cheio típico, tão típico, que nem o sei descrever, que nem o sinto mais, nem nunca mais o senti. "Convidando-me para morrer, eu procuro não olhar" e eu nunca olhava, e descia a rua, e ouvia a voz do Manel, e baixava os olhos, porque não queria olhar para os carros que passavam, nem para as pessoas que passavam, nem para quem passava, mundano, enquanto eu descia a rua, afinal não havia nada ali, naquela rua que me despertasse a atenção, uma paragem de metro, e a casa onde eu vivi, pouco mais, talvez outros dois sítios de interesse e pouco mais, muito pouco mais. "desse eu brilho à minha estrela, não teria de me esconder" e eu perguntava-me pelo brilho, onde estaria o brilho? e descia a rua às sete e meia da manhã já estava a descer a rua, uma hora antes de ter acordado, e descia a rua a pensar no caminho, e o porquê do caminho, e o ter querido estar ali com tanta força toda a minha vida, e depois não saber sequer onde tinha o brilho, onde o conseguiria, onde o teria perdido, e as sete e meia da manhã descia a rua, baixava os olhos, e ouvia esta voz a dizer-me sempre o mesmo, mas sempre diferente, em cada descida de rua; "mas a chuva nas minhas mãos, lembra-me que vou morrer" - e morria, sempre um bocadinho mais, e morri tanto, mas renasci tanto, levantei-me tanto, e fui tanto, e fui tudo o que podia ter dito, e não houve um segundo sequer daquela cidade que eu não tivesse aspirado, e não tivesse erguido o olhar ao seu esplendor, e não tivesse consumido em bruto toda a sua beleza, e estava cheia tão cheia de tantas coisas e tão poucas coisas, parece que quando temos tudo nunca temos nada, eu parecia-me sempre isso, até mesmo quando me perdia em Lisboa, aquela minha Lisboa que é só minha, porque a que eu conheço é só minha cá de dentro, o mundo próprio que fui criando, com os meus sítios preferidos, os meus, os que eu descobri, ninguém mos disse, nunca ninguém mos mostrou, e são meus, meus e de todos, mas só meus, "meu amor está perto" e a minha Lisboa sempre tão bela, sempre tão pura, e tão velha e tão massacrada e tão minha, sempre tão minha, que não havia sítio mais bonito no mundo, e não há mais nada no mundo tão bonito como a minha Lisboa, sair na estação do chiado, e depois ir por aí, umas vezes até ao tejo, outras vezes até ao bar, outras vezes até à beleza duma cidade inteira, e "vejo-o correndo para mim", e Lisboa sempre tão magnifica que me dava sempre tanta vontade de chorar e não havia sítio onde me sentisse melhor, Lisboa entristecia-me numa tristeza bela, profunda, forte. A tristeza mais pura de todas, "só que eu não sou certo" e em ti, nela, questionei-me tanto, e tanto me perguntei de mim, e tantas perguntas me voaram do alto do Camões sem olho, e tantos pensamentos me ocorreram a caminho de Alfama ao som duma guitarra de rua, às vezes. "Vejo-me correndo para o fim" - e tanto que Lisboa me fez chorar, e me fez sorrir, e me deu tanto que não me podia ter dado mais, e tirou-me tantas outras coisas, e tanto que em Lisboa e com Lisboa fui. "Vem morar na tua casa, a pobre nunca te viu ficar, chegas sempre com um dos pés, pronto para não entrar" e depois pensava sempre que era aquilo de casa, e onde seria a minha? e por não achar respostas vim-me embora, à procura de uma casa que fosse minha, ou somente à procura de uma casa, talvez somente uma casa, e depois quando olhei Lisboa até dali a muitos meses pensei que ia conseguir dizer-lhe de facto adeus por muitos meses, dizer adeus à minha Lisboa, à minha Lisboa. "meu amor está perto" e estava tão longe e depois fiquei tão longe, tão longe já que nem a memoria me podia lembrar, já e já nenhuma memória me lembrou já, "vejo-o correndo para mim" e depois fui eu que corri, para mim, para mim, e corri tanto e cansei-me tanto, e cheguei tantas vezes, e disse adeus por uns meses, a uma paixão tão grande, uma amor tão nefasto e depois estive tão longe dessa Lisboa que amei tanto, que amo ainda tanto, e depois estar longe foi a melhor coisa que fiz. "Vejo-me correndo para o fim". E depois pensei que de facto uma música que me faz lembrar Lisboa é esta, porque sim.

30.7.10

The Fucking End.

(...)
- Então, era o quê, que nós tínhamos combinado?
- Era a discussão do trabalho Professor.
- E era para hoje não era?
- Pois, eu estou à sua espera há 3 horas.
- Oh I. peço imensa desculpa, é que sabe, eu fui levar uma injecção e estou a ficar zonzo, e com este calor vai ser um perigo pegar no carro, já imaginou?
- Pois, eu compreendo. Mas então como é que fica a minha nota? É que eu vou-me embora dentro de dois dias.
- Oh I. não se preeocupe, não percisa discutir o trabalho eu já lhe dei uma nota no trabalho, é com essa que fica na cadeira.
- Ah sim? E que nota é?
- Olhe, então eu no trabalho dei-lhe dezasseis.
- (silêncio)
- Está ai I.?
- Desculpe, não percebi o que disse, deu-me que nota professor?
- Eu disse que lhe dei dezasseis.
- Dezasseis?! (boquiaberta)
- Sim, sim. Um dezasseis, ta a ver? Um 1 e um 6; dezasseis (16).
- (boquiaberta-sem-reacção) Um dezasseis no trabalho?
- Sim, mas fica com dezasseis na cadeira também, como nota final.
- (tentando recuperar do choque) Oh. Estou a ver, bem, hum, então obrigada Professor e as melhoras.
- Ora de nada I. fique bem, boas férias.

(ouve-se o impulso do outro lado da linha, I. mete o auscultador em baixo e olha para a senhora do departamento de Filosofia enquando esta acabava o seu iogurte e dava indicações a outro aluno, I. saltou uma vez, gesticulou, conteu a voz e disse em voz empolgadamente baixa)
- ele deu-me um 16! -
(A senhora do departamento de Filosofia sorriu) - Ahhh! vês, eu bem te disse que era melhor telefonares! Depois pagas-me um cafezinho! (risos)
- Até lhe ofereço o jantar na minha casa!
- Ora deixa lá, só quero um cafézinho, vai-te lá embora miúda, vá, boas férias, diverte-te!

I. saiu pela porta da faculdade com aquele tipo de sorriso de quem viu um pássaro azul, que sempre odiou ver nas caras dos mortais, mas sabia bem, foi o primeiro dezasseis académico, e um dezasseis académico faz-nos sentir uma espécie de deuses. Depois de muito café, muito puxão de cabelo, e muitas canetas a bater no chão, até sabe bem ouvir o nome Foucault e a História da Loucura.

Nove meses, dez cadeiras, uma cidade encantada.





27.7.10

menina e moça

as pernas,
os músculos,
as caimbras,
a sola dos sapatos,
o sono,
o cansaço,
o pouco dinheiro,
o sorriso,
os idiomas,
as pedras da calçada,
a Casa,
a Casa-lar,
os artistas,
os turistas,
os estudantes,
os pintores,
os músicos,
os amigos pouco amigos,
os outros amigos,
os amigos dos amigos,
os amigos no instante,
a cerveja,
os dois euros,
o teatro,
a performance,
a madrugada,
os miradouros,
os hambúrgers,
a amarguinha,
os desconhecidos,
os conhecidos,
os desconhecidos conhecidos,
os habituais,
as unhas pintadas,
as sapatas,
os passeios,
as conversas,
as confissões,
os segredos,
as canções,
os idiomas,
a globalização,
a publicidade,
a máfia,
a flauta,
o licor,
os nomes,
o calor,
a guitarra,
o Tejo,
o Bar,
o dono,
os filmes,
a fotografia,
a memória,
o número,
a humidade,
o nascer do sol,
o adeus,
a melancolia,
a despedida,
o voltar,
a cama,
o dormir,
o acordar,
a nova noite,
o começo.

Lisboa, ainda não morreu.
e eu ainda não gosto de leite.

e ainda bem.

21.7.10

It's Done.

Cheguei (ao fim).


e sabe bem. Foi uma boa viagem, ora curta, ora longa, ora amarga, ora doce, mas foi uma boa viagem.
Passaram-se desde então onze meses, onze, vezes trinta dias, trinta dias vezes vinte e quatro horas, vezes sessenta minutos. Passou muito tempo, muito depressa. Foi estonteante. Passaram-me mil rostos mantidos no anonimato cada vez que saia entre os passeios do meio dia e os do fim da tarde, e passaram-me mais de mil e um rostos que deixaram de ser estranhos. Houve muitos nomes, muitas palavras, muitos sorrisos, entre alguns gritos, algumas lágrimas, e algumas nódoas negras. De trás ficam todos os que se mantiveram e os que abandonaram a estrada, ou mesmo os que eu abandonei na estrada, ou até os que me abandonaram na estrada. Fica certamente essa estrada tão talhada de botas de caminhada e pés descalços. Ficam as placas na encruzilhada a dar-me as direcções, por onde fui, sempre sem saber onde ia, mas elas continuam lá para me perder novamente.
Cheguei ao fim da viagem destes onze meses, o que não é de todo um fim específico para o resto do que virá, mas é o fim do ciclo.
E bem, cheguei até aqui, há pouco menos de onze meses, deixando os adeus suspensos na atmosfera e percorrendo cerca de 300km de distância para aquilo que seria o novo mundo. Cheguei a esta minha Cidade Encantada ainda com uma ideia de magia na memória, trouxe uma mala preta com o meu mundo todo lá dentro, e na outra mão um macaco.
Depois disto desfiz a mala e vivi o melhor que pude. Não me arrependo de grandes coisas, segui com boa vontade o exemplo que me dava Pessoa, e enquanto isso, foram-me aparecendo outros Pessoa para seguir exemplos, segui-os na melhor consolidação das suas verdades com a minha e cá estou.
Sobrevivi ao primeiro ano, a minha Cidade Encantada ainda está longe de perder o encanto, mas fez-me vê-la melhor. Há onze meses olhava-a com o sol a iluminar-me a vista, agora, olho-a à luz natural do dia, e vejo-a bem.
Ao final, não sei se sou alguém melhor, não sei se engrandeci a sabedoria pessoal, nem sei se estou mais sensível ao quotidiano, mas sei que esta foi a minha estrada, e por mais buracos que tenha no alcatrão não deixo de a percorrer.
Cheguei à fronteira: e apresentam-se-me duas tabelas, uma segue para sul, a outra segue para onde a estrada me levar.

A esta, acho que sei a resposta...

15.7.10

cannelle



Meus Caros, escrevo para vós com a honra de vos escrever no topo da montanha. São ouvintes excepcionais, escritores, músicos, cineastas, romancistas, críticos, estilistas, actores, malabaristas, ginastas, pintores. São de uma subtileza tão magnífica que me encantam nas palavras, nos próprios blogues, na arte. Têm personalidades próprias dignas de uma singularidade utópica. Sonham, cantam, dançam, imaginam. Dividem o mais fiel dos mundos comigo, o da mente, e estou-vos inteiramente grata por isso. Caríssimos, nunca deixem de (me) escrever, nunca abandonem a doçura das palavras, nem os sonhos que metem nelas, seja quantos forem. Se quiserem ir a Tóquio vão, se quiserem contar histórias a crianças contem, se quiserem fazer mergulho façam, façam tudo "se puder ser, ou até se não puder ser" e vivam, mas nunca se esqueçam de quem são, de quem foram, e por vezes quando a corda estiver bamba assustem-se com o que irão ser. Vão errar, vão magoar(-vos) ou vão vocês magoar alguém, vão chorar, vão sentir dores no peito os as pernas cansadas, vão vomitar as entranhas se preciso for, mas quando chegarem ao topo de qualquer caminho que escolham, independentemente de terem os joelhos esfolados ou não, sentirão que não viveram em vão. Esqueçam éticas, morais, regras, sejam apenas fiéis a uma única coisa; vocês mesmos. Não se desrespeitem, não se menosprezem, não se minimizem. Saberão que não há ninguém mais verdadeiro que cada um de vós dentro de si. Sejam bons, até acharem por bem sê-lo, mas não provoquem o mal. Não lavem a loiça todos os dias, mas não deixem de a lavar. Não andem com os pés apertados em sapatos de verniz, mas ao andarem descalços, cuidado com os vidros. Façam isto, ou outra coisa qualquer, mas nunca se abandonem, nunca percam a verdade, pois serem verdadeiros convosco é serem felizes. O que tiver de ser será, já dizia a minha avó. E se o acaso o permitir, ainda "havemos de atravessar juntos o Letes, que é como sabem, um dos sete rios do inferno."

15.6.10

Puf.

Vou meter isto muito simples: dói-me a cabeça. Já não suporto o barulho ensurdecedor da flauta do quarto ao lado que me transtorna a existência duas horas por dia (logo as que eu utilizo para dar descanso à alma). Na recta final dum, umas vezes longo outras curto, ano académico, ainda não sei o futuro que me reservam os deuses, mas uma coisa é certa, com apenas um trabalho por entregar lá pró próximo mês, sinto-me como se me tivesse passado um camião tire por cima. Aposto que a Excelentíssima Senhora me vai chumbar a EC. No fim de contas ela nunca foi com a minha cara, e bem se sabe como as aparências nesta sociedade são importantes. Para além disso o meu International Study Card teima em não ter as funcionalidades todas, e o departamento de Relações Externas está prestes a escorraçar-me, e isto porque o serviço público em Portugal não é eficiente! Tenho os livros empilhados em cima da mesa, e uma mala por acabar de remodelar. Por acaso a minha mãe no outro dia fez-me um xaile lindo, e isso alegra-me os ânimos, mas no fundo sinto-me o mesmo fracasso de pessoa. Estou a entrar em pânico só de pensar em Setembro, vou em busca do meu sonho, mas bem sei que os sonhos nem sempre são cor-de-rosa. Não me poderia sentir mais feliz, mas não me poderia sentir mais medrosa também; pelo país, pela cultura, pela avaliação, pela individualidade, pela liberdade (...) and so one. À parte disso ainda não consegui juntar o dinheiro para a máquina fotográfica que namoro há mais dum ano, nem o devo conseguir em tempos próximos. Lisboa segue igual e bela, uns dias com mais calor, outros com menos. Gosto muito de tudo, mas já me cansam estas malditas cortinas cor-de-laranja.

18.5.10

Chegar


Um dia tive medo. Tenho medo muitas vezes. Mas quando isso acontece, fecho os olhos e deixo-me levar pelos caminhos das minhas emoções, vejo coisas, vejo muitas coisas. Quando abro os olhos novamente, posso continuar com medo, mas sigo em frente. Nesse dia em que eu tive medo segui em frente. Quando abri os olhos tinha um lenço vermelho ao pescoço. Agora já não tenho medo, nem palavras que consigam descrever o que sinto. Mas tenho uma coisa certa dentro de mim: levo as quatro cores no braço, levo no braço a minha vida inteira.

4.5.10

Serenata

E Lisboa cobriu-se de gentes levando em mãos as capas negras.
Envolvendo-os a emoção no corpo quente levando a chama acesa.

Guarda em ti, ó Cidade, o coração dos estudantes nas vielas,
Dos que trajam, dos que sofrem, dos que choram,
dos que gritam e se lamentam às janelas.

Por ti, Lisboa, estas vozes cantam
recordando outros tempos, outras eras.
As saudades, mais antigas que embalam,
quem não as teve, e quem as tem, e se envolve nelas.

Adeus Lisboa, a ti canto, cantei, cantámos.
Guarda-nos com as sortes do teu encanto,
recorda-nos neste tempo de maldade.
Só não nos leves o desejo a liberdade,
Só não nos dês lamúrias nem o pranto.

Adeus, Cidade Encantada, foste minha,
de joelhos chorei com alegria à tua beira,
a minha capa, o meu corpo, toda'alma tinha
eu para te dar a vida inteira...

16.4.10

conversas de àtrio

(...)

1: Não me arrependo de nada, mas parece-me que estamos a chegar a um ponto em que as relações são meramente sexuais.

2: Sim, não posso discordar, a verdade é que cada vez mais caminhamos para o individualismo, a própria sociedade conduz-nos a sermos cada vez mais fechados em nós próprios.

1: Penso que se acabou aquele "amor" de verdade, lembro-me de ter uma professora no ciclo que estava com o marido desde os 15 anos, imaginas agora alguém estar com uma pessoa desde os 15 anos? Isso já é quase impensável.

2: As relações são de circusntância, talvez por medo, por receio(?), não sei bem, mas cada vez mais somos menos dados aos sentimentos, quem é que agora abdica da sua felicidade pela felicidade do outro? Já nem queremos saber do outro, nem sabemos cuidar de algum sentimento que nos absorva.

1: Olha, eu não me arrependo de nada até aqui, mesmo das coisas más.

2: Eu também não me arrependo, porque todas elas tiveram alguma coisa para me ensinar. Sabes, penso muito nisto e na verdade acredito que o que tiver de acontecer acontece. Assim, aceitar as situações e compreende-las como parte do nosso crescimento é o melhor que fazemos. Todas as pessoas, todas as circunstâncias que nos fazem ser o que somos.

1: Sim, e hoje somos desta forma por esse tal caminho que atravessamos. Mas sabes uma coisa?
Eu ainda acredito no amor...

(Sorriem)

22.3.10

After Paris, came London.



Take me out tonight where there's music and there's people who are young and alive. Driving in your car I never never want to go home because I haven't got one anymore.Take me out tonight because I want to see people and I want to see life. Driving in your car, Oh please don't drop me home because it's not my home, it's their home and I'm welcome no more. And if a double-decker bus crashes into us, to die by your side is such a heavenly way to die. And if a ten ton truck kills the both of us, to die by your side well the pleasure, the privilege is mine. Take me out tonight, take me anywhere, I don't care, I don't care, I don't care. And in the darkened underpass I thought Oh God, my chance has come at last, but then a strange fear gripped me and I just couldn't ask. Take me out tonight, take me anywhere, I don't care, I don't care, I don't care. Driving in your car, I never never want to go home because I haven't got one. No, I haven't got one. There is a light that never goes out. There is a light that never goes out. There is a light that never goes out.

There is a light that never goes out.



14.3.10

A Morte do Artista

- Eu sou imperfeita: Sou reles, sou preguiçosa e sou sonolenta, sou teimosa e sou rabugenta.

Eu sou, a Inês: à primeira vista maravilhosa.

Isto e aquilo e os olhos e o sorriso, oh!


E depois…Ah!



E depois… A história muda, a conversa é outra… (Dizem eles)


- E é…

- Será?

- Não sei...

- Eu, sou no fundo, uma artista! Sim! Uma artista (digo-o com vigor, e com vigor aceno com a cabeça em jeito de afirmação!).


Mas… Onde estão os papéis?! As encenações…Os guiões… O palco…?! Onde é que está o contrato e a entrevista? Onde está o Teatro?


- Não está?!

- Está, Está!

- Mesmo agora o sinto, ainda agora o vi, vejo-o com vigor, a passar-me por entre os dedos!

- Onde é que está a ribalta?

- Eu não quero a ribalta!


(O que eu quero é, andar em cima do palco, ver o pano vermelho descer, ouvir os aplausos e sentir-me contente com isso!)


-Hoje é noite de Teatro! A cidade parou para ver o espectáculo!
(Ou já não há Teatro? Ou já não há Inêses no palco? Ou já não há nada disto?)

- Bela artista…! (Dizem eles)


(E os artistas saem todos. Nem chegam a entrar, a porta dos fundos fechou. Não há camarins livres, não há guião, não há fatos, não há peça. Mas o Teatro está cheio! O que se vai ver?!)


- Ah! Já sei…!

Os actores foram despedidos. Contrataram os modelos para pousar na fotografia. Falar ou não falar?! É indiferente, o bom aspecto já lhes basta, assentam que nem uma luva.
(Eu não gosto de luvas.)


Já isto nos vale.


- Haja beleza! (gritam eles)


Haja beleza! E então… Foi uma boa oportunidade sempre encontraram um ou dois anorécticos na esquina. (Mas haja beleza meus amigos!) Todos para cima do palco (vá, toca a andar!), o importante é sorrir, falar?! Para quê falar? Ninguém vós vai ouvir… Preocupados estão eles em que a foto fique boa na capa da revista...


- Não se apoquentem! Nós sobrevivemos.

- A sorrir, obviamente.



13.1.10

Bright Star




O filme que saiu do ecrã para se entranhar na minha alma.
Provavelmente não o vou conseguir ver de novo tão cedo.
Perfeito.
Não há mais nada a dizer.

2.1.10

Overdose


Obrigada.
Tenho estado para te escrever uma carta de amor, mas já o mestre dizia, as cartas de amor são ridículas. E eu não quero parecer ridícula escrevendo-te uma carta de amor. Não é que ache as cartas ridículas, mas talvez o amor o seja. De uma forma qualquer, eu amo-te. Com alma. Comecei a amar-te ainda sem saber o que eras, ainda com a noção um pouco turva daquilo que significavas, mas pouco a pouco este amor cresceu. Hoje para além de te amar, expiro-te, levando-te ao expoente máximo da loucura, tens em mim uma significação tão essencial que existir longe de ti já não faz sentido nenhum. E eu quero ter sentidos, contigo. Amo-te de um amor tão cá de dentro, tão puro, tão poético, tão próprio. Amo-te desde que te senti o cheiro, desde que te encontrei o rasto, desde que me descobri em ti e contigo me tornei isto que hoje sou, isto que hoje me fizeste e fazes ser. Amo-te porque és tu, porque sou eu. E tenho em mim que ninguém te ama como eu, porque eu amo-te com os olhos, com as mãos, com os pés, com a boca, com o corpo. Eu amo-te na forma mais pura que tenho de amor, na forma mais básica de amar, amo-te porque sim. Criaste em mim sonhos e ilusões, e como sonhos e ilusões que são podem ser impossíveis ou podem ser possíveis. O destino que tens e que eu tenho por junção a ti é extraordinariamente imperceptível e incerto, mas no entanto só te tenho a agradecer. Sei que se o meu castelo encantado desmoronar tu talvez não me abraces, talvez não me seques as lágrimas, talvez não apanhes os estilhaços que caírem no chão, mas sei que se o meu castelo encantado cair o teu chão terá sempre espaço para a construção de um castelo novo. Eu amo-te. E talvez no teu interior tu saibas que eu te amo, e talvez no topo da tua magnificência tu tenhas isso vincado, e talvez tenhas um espaço para mim dentro de ti. Contudo, independentemente disso, amo-te na mesma. Amo-te porque és um caminho, porque és uma estrada, porque és uma rua, és uma casa, uma pessoa, um cão vadio, um sem-abrigo que dorme na noite mais escura, porque és uma multidão de gente, porque és futuro, presente e passado. E mesmo que não sejas o meu futuro, ou mesmo que me excluas do teu corpo inerte de alcatrão, serás sempre Lisboa a cidade onde me perco para me encontrar...

21.12.09

The Show

Durante muito tempo ainda tentei ir contra esta vontade que me angustiou sempre, de um sonho fracassado. Também nunca me esforcei muito mais do que isso para ir em função dele. A verdade é que hoje me é completamente impossível ficar-lhe indiferente. Foi uma coisa que nasceu comigo e há-de-me acompanhar até ao fim: sou completamente afiixionada pela moda. Embora proteja os os direitos da natureza e repudie o consumismo humano e seja a favor da qualidade de vida animal, a moda para mim tem e terá uma importancia fundamental se não até mesmo essencial. Mas note-se uma coisa, não se trata de comprar 5 pares de calças num dia ou andar sempre com roupa nova, trata-se da moda no seu estado mais puro. Os desfiles de moda, os estilistas, as novas tendências, os padões, as cores, os tecidos, as entrevistas, os modelos, as maquilagens, todo esse enredo de feitos, toda essa manobra até chegarmos ao basico pronto a vestir das lojas mundanas. Do site mais famoso ao blog mais vagabundo eu vejo e relaciono todas as roupas, todas as conjugações de vestuario, todos os apelos a novos estilos, que no fundo são só mais o reviver de épocas passadas, mas que me preenchem de uma forma inimaginável. Isto é o meu eu verdadeiramente próprio, este desejo que nunca foi mais além do que um simples sonho de criança já há muito dissipado, mas que se vincou e vinca em toda a minha personalidade até aqui. Desse mundo completamente despresível que cria em mim emoções que não encontro em mais mundo nenhum. No fundo, até podia ter vingado bem na vida, não é que fale como se tivesse 90 anos e fosse morrer amanhã, mas ou isto se agarra no ínicio, ou a meio já não vamos a lado nenhum, e eu já não vou a lado nenhum, mas fica pra sempre o sonho, o verdadeiro sonho, o único sonho.