No outro dia, pus-me dentro do comboio direita a sul (para matar saudades? para endireitar o pensamento? para acalmar o espírito?) a carruagem era a 22 e o acento o 113, lembro-me disto de cabeça, por nada em especial, mas porque fui decorando o numero até entrar na linha 4 e esperar pela partida. atravessei a carruagem, toda, até chegar ao fim, ao lado da porta inversa à que entrei, lá estava o 113, uno, simples, só, mas alguém ocupava o outro lugar - viagem com companhia - pensei (será bom, será mau?! logo penso nisso). Primeira vista (sempre comprometedora); lábios vermelhos, ray-ban's antigos próprios de quem não liga(va) a marcas ou modas, colar comprido de pérolas irregulares (verdadeiras?!) cabelo aparado sem exagero, num lusco-fusco próprio de quem passava pelas brasas, ocupava também metade do meu banco. - Sentei-me, como me deu melhor o jeito, e fechei os olhos, concentrei-me nos ruídos do espaço e mantive os olhos fechados. Passaram 10 minutos, e sinto um tocar no braço. Chamava-se Maria U., dizia que não gostava do segundo nome (e por isso, não o escrevo), era quase do Minho, entre Braga e o Porto. E felicitou o acaso de nos termos encontrado ali, uma que era do sul, e a outra que era do norte, e o acaso de nos termos encontrado ali, uma vez na vida, e de termos conversado, foi um momento maravilhoso. E eu própria agradeci ao acaso o termo-nos encontrado ali, naquela carruagem 22 naquele acento 113, por, como dizia alguém, ter conversado, conversado com alguém que ainda sabe sorrir. Tinha quase 80 anos, era viajada, arrojada, alegre, sábia. Tinha classe. E histórias para ouvir à lareira noites sem fim. A Maria U., saiu em Grândola, ia para Sines, ver as Músicas do Mundo, porque gostava de ver a animação nas ruas e de espreitar as bugigangas que os jovens vendiam. Depois de Grândola, não voltei a ver a Maria U., mas espero sinceramente que tenha comprado todas as bugigangas dos jovens, e use uma diferente todos os dias, porque são extravagantes mas não faz mal, e porque dão alegria. Espero também que a Maria U., acabe por me encontrar um dia, em qualquer parte, outra vez, para conversar, ou para rir, ou para contar peripécias, naquela que foi uma viagem que me ensinou tanto. Depois de Grândola não voltei a ver a Maria U., mas rumei até ao Algarve com a pronuncia do norte na cabeça, e aquele sorriso feliz pintado com batom vermelho que não esquecerei, mesmo que a memória desvaneça. Depois de Grândola, não voltei a ver a Maria U., nem aquele batom vermelho, mas acerdito que a vá encontrar outro dia, entre Braga e o Porto, ou pelo Sul, ou por Lisboa, porque pessoas como a Maria U., valem a pena serem (sempre) encontradas (de novo).
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25.7.11
20.4.11
Ao ler este blog um novo ânimo nasceu em mim. HEY não sou a única. A verdade? Em Erasmus ENGORDA-SE! Ponto. E depois? Quando acabar limam-se as arestas, afinal I'm Erasmus.
20.3.11
lembro-me bem de como me aborrecia ver a minha mãe sempre preocupada com o que fazer para o jantar ou com a máquina que estava a lavar ou com a roupa por passar a ferro. Certas vezes até, quando se juntavam as amigas e, fora a típica conversa sobre trabalho, se metiam a falar das novas receitas que tinham experimentado, e como tinha corrido muito bem e era muito bom... Confesso que não entendia minimamente o porquê de toda aquela agitação com as tarefas domésticas que, para mim, me pareciam sempre tão desinteressantes e sem assunto nenhum. Pois bem, bastou-me mudar de pais e bastou-me ver-me a viver sozinha, numa casa com mais três raparigas europeias. Bastou-me começar a ir às compras sozinha e programar listas de coisas a não esquecer ora na cabeça ora no papel com dois dias de antecedência, e passar horas a olhar para uma prateleira sem saber que raio comprar. Bastou-me iniciar a lida doméstica e ouvir queixas das outras quando algo está menos bem, bastou-me ter de mudar completamente de cenário e ter de ser eu a comandar a própria vida. Bastou-me isto para agora ligar à minha mãe para lhe pedir as suas receitas de como fazer carne no forno e sopa, ou até perceber a que temperatura se lavam as lãs para não se correr o risco de posteriormente servirem à minha prima de oito anos. De uma maneira simples; bastou-me "fazer-me à vida" para compreender perfeitamente o que passei a vida toda a renegar; essa entrega desenfreada à casa e às lides domésticas que eu sempre abominei e achava que quem o fazia era porque não tinha mais nada para fazer. E agora, calo-me muito bem caladinha, enquanto estudante universitária num país estrangeiro e dona de casa, e curvo-me perante o aspirador e o detergente da loiça e meto mãos à obra, todas os dias (e às vezes quando o pior acontece, ainda sou capaz de ir a correr telefonar à minha mãe para lhe chorar no ombro as minhas vicissitudes domésticas), pois é meus caros, a vida muda(-nos).
30.1.11
é.
hoje foi domingo, foi domingo de batidos, dia de batidos digo. hoje foi domingo e contudo em vez de ser um miserável domingo foi somente um agradável domingo. e ainda são só cinco e quarenta da tarde, porque penso eu que o dia já acabou?! - já não tenho sol há duas horas é. hoje foi um domingo, sai de casa, e dei de caras com o desejo, ali especado à minha espera. eu costumo ter sempre esta visão das coisas, de que se tiverem de ser têm de ser, e da outra vez achei isto, hoje conclui-o: teve de ser e foi, é. então fiquei alegremente satisfeita, nem tava muito frio, vejam só, nem tava muito frio e uns raios de sol, uns raios de sol, imaginem! percorri o caminho ao avesso que era o chegar a casa, com a cabeça posta na varinha mágica que a minha mãe me tinha comprado no natal, naquela do empurrar-me como quem não quer a coisa para a evolução culinária, mães. andei o caminho a pensar na varinha mágica e nas bananas que tinha que só durariam mais um dia antes de apodrecerem por completo, e heis que me veio à memória aquele sabor inigualável dos batidos que bebia em garota, e heis que me deu aquela tremenda vontade de dar uso à varinha mágica oferecida com boa intenção e acabar com as bananas já quase dissecadas, foi o que fiz. Sabem há quantos anos não bebia um batido?! nem eu sei bem, mas deve ter sido o melhor que bebi desde há tanto tempo: primeiro porque foi obra minha (risos), segundo porque era um batido. Com domingos destes até dá gosto ter os autocarros avariados.
3.12.10
- Adormecer.
Adormecer tem sido um problema, tem sido um fracasso, tem sido uma incapacidade minha, já se somam as inúmeras noites em que não sou bem sucedida no acto, de, adormecer. E depois vagueio-me por aqui, na esperança de encontrar alguma novidade que me preencha o vazio, alguma conversa que me saiba reconfortar o espírito, ou alguma mensagem sequer. Mas acabo por não encontrar nada. E na mesma não adormenço. Tem sido árduo, muito. Não tenho viajado, não tenho saído, não tenho convivido, não tenho falado, não tenho visto. Tenho-me limitado ao trabalho a que me impõem e pouco mais que isso, e já o pouco que é isto me põe completamente de rastos. Falta uma semana. Falta um fim de semana de 48 horas de 40 horas de trabalho e depois poderei adormecer. Falta tanta coisa ainda, tanto texto, tanta pontuação, tanta palavra. Estou de rastos, estou vencida, estou sem energia, estou com sono, estou cansada, estou sem paciência. E as culturas são tão diferentes, e os alunos são tão energéticos que não sei onde irão buscar tanta energia e tanto gosto ao que fazem. Talvez eu também tivesse energia, se este fosse o meu país e o meu idioma, e não demorasse o dobro do tempo dos meus colegas a fazer os trabalhos e a ler mil vezes a mesma página para que não me escape nada. Talvez eu tivesse mais energia se ao fim do dia não ficasse completamente esgotada sem vontade sequer de fazer o jantar, talvez tivesse mais energia se o sol não se pusesse às duas da tarde, e se eu às duas da tarde ainda visse vida na rua, ou sentisse algum calor. Talvez tivesse mais energia se os graus não fossem negativos e eu não tivesse os pés sempre gelados, e se não ouvisse o meu pai a relembrar-me consecutivamente que não posso falhar. Talvez tivesse mais energia se não tivesse saudades da minha roupa, e das minhas malas, e dos meus sapatos, e dos meus ganchos do cabelo, que estão a dois mil quilómetros de mim. Talvez tivesse mais energia se houvesse cafés de máquina aqui e eu pudesse beber um com sabor a café real, e não uma qualquer água suja preta com leite lá dentro. Eu nem sequer gosto de leite! Talvez tivesse mais energia se conseguisse dormir mais, mas conseguir dormir mais, é uma vitória falhada no meu dia.
29.11.10

hoje até me apetecia apaixonar-me de novo, e comer chocolates, e ver filmes até o sol nascer, e falar com alguém ao telefone só porque conversar é bom, hoje até me apetecia estar aqui assim no sofá a ouvir o tiago bettencourt a cantar e a viver apenas ao som da música, só porque sim. hoje até me apetecia sorrir, sorrir muito, só porque sorrir é bom, e é bom estar aqui.
17.11.10
pois é, e a vidinha está a ficar agitada.
(...) e então acordei já apressada para ir falar com o professor de cinema, o autocarro como é natural, demorou mais do que o previsto, demora sempre. e eu cheguei glamorosamente atrasada, de novo. entrei e automaticamente desculpei-me à toa, o velhote sorriu-me e disse "ora, não há problema, são só cinco minutos" mas como eu sempre ouvi falar na pontualidade britânica, coisa que já constatei ser verdade, entro sempre num pânico a cair para o dramático nestas alturas. e bonito foi termos conversado, eu e o meu professor de cinema, conversamos, em vez de falar, e isso encheu-me de júbilo. - Sabe, não me deve tratar por Professor, chame-me Stephen, que é como se deve chamar os professores, pelo nome. desculpei-me, dizendo que me havia habituado desde sempre a tratar os professores por Professor, e ainda mais na universidade. esquecemos o assunto e quase findada a conversa oiço dizer - olhe Inês é verdade que estamos todos muito contentes por a ter aqui, é muito importante para os seus colegas e para nós podermos ter a oportunidade de conviver com uma aluna estrangeira, e como viu ontem na aula quando me falou nas flappers os seus colegas nem faziam ideia do que era uma flapper, e eles são britânicos, fico mesmo muito contente por estar connosco. Agradeci e corri para a biblioteca tentar por milagre achar a infindável lista de livros que ele me ordenou. tarefa impossível pensei, depois de um bom bocado percorrendo as infindáveis estantes de cinema da biblioteca, poisei o corpo já rendido na cadeira e mentalmente pedi inspiração a alguma força maior, aquando disto, heis que me aparece um senhor já distante da juventude mas com um ar encantadoramente simpático a quem eu supliquei ajuda imediatamente, riu-se com aquele ar de quem me pensou jovem de mais para viver, e cordialmente disse-me: posso levar a listinha? - faça favor! respondi, e mentalmente agradeci à força maior por me ter posto aquele santo à frente. nem 20 minutos haviam passado quando me chega o pobre homem com os braços cheios de livros, exactamente os mesmos da listinha, naquele momento apeteceu-me dar-lhe um abraço e agradecer-lhe por estar vivo e de boa saúde, espero. claro que imprimir alguma coisa ali é simplesmente impossível mas não desistindo desta ideia corri o campus para conseguir o código da impressão, tal é a modernisse, muito pouco prática mas pronto, é moderno. como é óbvio não cheguei a tempo, e no entertanto da correria o telemóvel toca, era a minha colega de teatro, a Olivia: o Josh vai fazer uma imporvisação agora queres ir ver? eu espero por ti à porta do edifício de humanidades, não sabes onde é a sala pois não? - claro que não sabia onde era a sala, eu nunca sei onde é nada, mas ia ver o Josh claro que ia, e disse-lhe que esperasse enquanto eu, feita super-herói, arrastava rapidamente o esqueleto até ao dito lugar. entrámos, lá estava o Josh, o Josh e o Antonny, a servir chá e café, antes de começar a encenação, ouvi um grande "olá Inês" vindo do Antonny e um admirado "Inês tu vieste!" do Josh, o Josh tem piada, é hilariantemente inglês, mas um tipo de inglês muito de bons modos o que me agrada imenso e portanto conversar com ele é uma tarefa pouco dura. Sentei-me com o meu café servido pelos rapazes a aquecer-me as mãos quando alguém me sussura ao ouvido "Inês!" quase que salto da cadeira, olhei para trás e vi a cara da minha professora de teatro de rua, a Susan, que me diz: "Inês, ainda bem que te encontro aqui, na verdade preciso de falar contigo, porque eu tenho aqui uns estudantes e professores da américa do sul que vieram dar umas conferências, e eu falhei-lhes de ti e então eles perguntaram-me se te importavas de lhes falar sobre a tua experiência na universidade e como tem estado a correr tudo isto, se quiseres claro" queria, claro que queria, disse que sim, e ela esganou um sorriso de como quem gostou da resposta. afinal eu gosto de conhecer pessoas novas. sentei-me e vi a peça dos meus colegas com entusiasmo, não era uma peça, era afinal, só um filme sobre o trabalho que desenvolveram até aqui, performances que fizeram na rua que filmaram e estavam agora a mostrar-nos a reacção das pessoas, acabou o filme e fez-se uma roda de cadeiras, estavam presentes entidades grandes, que depois deram a sua sábia opinião sobre o assunto, e eles lá iam escrevendo o que achavam melhor não esquecer, e rabiscaram notas e mais notas, não me atrevi a abrir a boca, tal era a qualidade da opinião dos mais velhos, mas fiquei atenta ao que se disse. assim que o encontro acabou despedi-me dos meus colegas Antonny, até sexta e Josh, até segunda, e segui com a Olivia para o Arts Center, hoje era noite de Teatro, a Olivia acompanhou-me na conversa enquanto esperava por uma amiga, falamos sobre nada de grande interesse, simpatizo com a Olivia, é porreira, inglesa de Londres, mas com todas as características de uma alemã desbocada e livre, acho-lhe piada e é uma boa companhia nos tempos mortos. a amiga chegou e as duas foram indo e eu que detesto ficar sentada, sozinha, na mesa de café quando não estou a fazer nada, levantei-me muito corajosamente com os livros e o computador e todas as coisas que as miúdas têm a puta da mania de pôr dentro das malas que para além de não terem utilidade nenhuma, só fazem peso, e portanto compreendia perfeitamente a minha dor de costas. ainda assim, muito na minha pose fui directa à loja dos discos, deambulei-me por lá e depois de tudo ver reparei que tinha nas mãos um CD da Nina Simone e outro do Mozart, nem sequer me questionei sobre aquilo, desloquei-me à caixa e simplesmente paguei pelos CD's e fui-me embora. e o telefone toca, era a Julia, colega de casa alemã: "sempre vais ao teatro, estamos a chegar, podemos ir juntas se quiseres." podemos ir juntas sim, respondi, e esperei, chegaram; ela e uma amiga, mostraram-me os bilhetes e perguntaram-me qual era a minha fila, não fazia ideia, ao ver o meu bilhete apercebemo-nos de que estávamos exactamente na mesma fila, exactamente ao lado uma da outra, e a piada foi que nem sequer comprámos o bilhete juntas. Seguimos para a sala, sala bonita pensei, e a peça começou, o que senti lá dentro é uma outra história. findada a peça corri para apanhar o próximo autocarro, demorou não muito tempo, e quando entro gelada reparo que quem o conduzia era o meu "amigo motorista", há um motorista já no alto dos seus 50 e tal anos, que me sorri sempre quando eu entro no autocarro, mas não é um sorriso qualquer é um Sorriso, e assim que o vi, resplandeci a minha alegria toda no gesto de sorrir também e disse alegremente: "Oláaaa! Como está?" ao que me responde "Oláaaa! desejo-te uma boa viagem". a viagem acaba e à saída agradeço como se me apetecesse abraçar aquele homenzinho com o seu típico gorro a esconder o frio da cabeça, e ele responde-me num dos melhores Obrigados que a gente me diz, e eu saio felicíssima esperando pela próxima viagem no autocarro do senhor do gorro de inverno, e nesses momentos, sinto-me com o dia ganho, tal é a força daquele sorriso que me aquece o coração nem sei bem porquê. e assim que chego a casa, faço um chá e ponho-me a escrever, e penso que escrever é bom e o chá também.
11.10.10
Tikey

Ainda tou para saber qual é a entidade do sexo feminino que não gosta de ir às compras. Perdoem-me o possível ferimento de susceptibilidades, mas eu não acredito que não gostem de ir às compras. Já acredito se me disserem que é chato ficar três horas a experimentar roupa, claro, isso haja santa paciência. Mas não me venham com tretas de não gostarem de fazer compras. Toda a gente gosta de fazer compras, porque toda a gente gosta de se sentir bonita. Não tentem negar, é verdade. Toda a gente gosta de se sentir bonita e bem consigo mesmo. E isto não tem a ver com serem pessoas com mania ou pessoas sem mania, tem a ver com serem pessoas, ponto.
Eu, adoro ir as compras. Mas não é ir às compras por ir às compras, é ir as compras e em cada peça ver uma arte própria antes de ela existir. É ir às compras, comprar o que se quer, chegar a casa e mudar o que se comprou, estar na loja e já imaginar como é que isto ou aquilo irá ficar, mudar os botões, mudar a cor, mudar o comprimento, ajustar ao corpo. Este poder de domínio fascina-me, sempre me fascinou, e adivinhem, estou na realidade perfeita, onde ao entrar na livraria da esquina existe uma estante só com livros de costura.
E agora, não me venham dizer que não gostam de ir às compras, ir às compras é uma experiência riquíssima, e falando nisso, tenho os botões do meu casaco (novo) para mudar...
10.10.10
Corsa-leão
O pessoal das artes, é sempre um tipo de pessoal diferente, afastado da realidade, mais jogado para dentro de si, mais num não-sei-que-mais profundo. E isto abrange o pessoal de artes no geral, de todas as artes, de todos os cantos, de todas as realidades.
Ainda assim, dou por mim a só encontrar a verdade no pessoal das artes do meu país. Não desvalorizando claro o pessoal das artes dos outros países, mas no pranto da juventude que os une a todos, o pessoal das artes do meu país tem um cariz mais sofredor, mais saudoso, mais trespassado do que qualquer outro pessoal de artes de qualquer outra parte.
Penso, sem não desvalorizar as outras partes que não conheço, mas valorizando aquela em que vivo, que o pessoal das artes do meu país, salvo excepções, é mais artista.
Aqui, onde há chá e cortesia e simpatia e tudo mais e o tempo roda vagaroso numa rapidez alucinante numa outra noção de realidade, o pessoal das artes também é muito artístico, mas de uma maneira mais plastificada.
É que falando em arte, já me fere os olhos tantas vezes olhar e ver retratada sempre a mesma personagem Vintage encarnada na maioria dos corpos que por mim passam.
Valorizo muito esta noção artística do vestir, do estar, do pensar, do saber, e do se ser. Mas é certo que os artistas que são artistas de cabeça não precisam de tons pastel e rosa morto para se afirmarem como tal, nem tão pouco o mesmo tipo de óculos que o grande Zeca Afonso usava, não para parecer bem, mas por ter falta de vista.
1.10.10
59 MS.
A Inglaterra é um bom país. Londres é uma boa cidade, e este um bom sítio para viver.
Chegue à Inglaterra, o el dorado dos meus sonhos, o destino de todas as minhas rotas, o grande sonho, o projecto de uma vida, o desejo de uma alma inteira, e... Heis que Londres não passou de mais uma cidade europeia. E heis que o metro de Londres me dá claustrofobia por ser demasiado junto às pareces, e heis que ao andar nas estradas quase entrava em pânico quando avistava rotundas e as contornava pela esquerda. E heis que o Big Ben me desapontou. É uma vergonha eu dizer isto da cidade dos meus sonhos, mas mais uma vez talvez consiga provar que às vezes os sonhos não passam disso mesmo, simples utopias. Apesar disto, Londres continua a ser uma grande cidade, uma óptima cidade, adorei viver Londres durante os dois dias que lá estive, adorei encher-me de Londres até mais não puder, adorei sugar Londres com os olhos até adormecer com ela, adorei Londres, assim como adorei ver a Mona Lisa quando fui ao Louvre e me desiludi com o seu tamanho. Porém, a Mona Lisa continua a ser a Mona Lisa, e Londres continuará a ser Londres, não importa o quê, e eu vou continuar a gostar de Londres, não como gosto da Mona Lisa, porque até nem gosto muito, mas como gosto de Londres, como sempre gostei, mesmo antes de lá ter estado. Porque Londres será sempre Londres, na minha cabeça.
Depois de Londres, enfiei-me num comboio que demoraria duas horas a chegar, muito a medo. Uma senhora de larga idade com um dócil sorriso, notando talvez o meu pâncio, tentou saber coisas sobre mim, no seu tom de voz relativamente amoroso e baixo, contou-me sobre o filho e a caravana, e sobre os netos que foram a Espanha. Quando saí na estação que me convinha, tinha por sorte dos Deuses o primo dum amigo, que por mero acaso vivia na cidade onde eu havia chegado e teve a gentileza de me ir buscar à estação. Achei-me a pessoa mais surtuda de sempre. Fomos à universidade e rapidamente consegui as chaves da minha nova casa. Parámos num pub, depois de dar-mos ainda umas duas voltas à cidade, fomos fazer qualquer coisa como jantar, se bem que jantar em Inglaterra seja uma grande piada. A comida não era má, o que não fazia dela boa. Aliás, pela experiência dos últimos dias a comida em Inglaterra não tem sabor, ou os ingleses não sabem de todo cozinhar, ou não têm grande aptência para especiarias. Mas eu que venho de um país latino, se calhar tenho um paladar mais marroquino do que este povo anglo-saxónico.
Quando cheguei àquilo que chamo The House, havia algures uma francesa, que me recebeu gentilmente, e no dia seguinte me ajudou em tudo o que percisei. Havia também uma tal alemã que ainda hoje não pus a vista em cima, mas espero ainda encontra-la qualquer dia. Na noite passada a porta abriu novamente e saúda-me uma outra francesa. Pensei: mas que raio, estará o mundo cheio de franceses? Não poderia ter sido uma espanhola ou assim? Mas rapidamente estabelecemos uma espécie de amizade internacional, devido à grande simpatia e espírito jovem da jovem em questão.
Esta manhã apareceram os problemas, e ia chorando, porque a não-sei-quantos-mil-quilómetros-de-casa as coisas tendem ser emocionalmente mais duras. Eu sempre soube que muita sorte dá azar, por isso, é mais uma forma de levar os meus instintos até ao fim, o que acabo por nunca fazer mas, está bem.
Já fui às compras, e tenho a dizer que o IKEA é uma exelente ideia, e então o de Inglaterra ainda melhor. Este país tem grandes oportunidades comerciais. O que me satisfaz imenso, a mim e às minhas colegas de casa.
E bem, assim se vive com a Espanha, a França e um bocado de mar a separar-nos do nosso lar. Tenho algumas saudades confesso, o que não invalida o facto de eu estar a amar estar nesta grande aventura, mesmo com tudo jogado para trás das costas, e completamente entregue ao destino, nao deixa de ser uma boa experiência.
Conseguirei?!...
23.9.10
7.9.10
say no!

Seres bonita não é a mesma coisa que seres atraente.
Seres simpática não é a mesma coisa que seres inteligente.
E provavelmente vão-se tar todos nas tintas se vomitas o almoço ou bebes um copo de água ao jantar. Vão-se lixar para ti independentemente dos livros que lês, ou da música que ouves. Mas é na boa se tiveres um bom par de mamas, e medires um metro e oitenta, é na boa se souberes abrir bem as pernas, e manteres a boca fechada.
Não deixes que isto aconteça, e orgulha-te dos teus 60kg.
like
Gosto do Peter Pan, gosto do Rafiki e gosto da Mulan e do Mushu. Gosto de estar deitada no sofá, e gosto de ler. Gosto muito de ler. Gosto de livros com literatura abstracta, que nem são bem isto nem são bem aquilo. Gosto do José Luis Peixoto e do Pedro Paixão e do Valter Hugo Mãe, e do Saramago, e do Miguel Torga e do Fernando Pessoa, e do Vergílio Ferreira. Gosto da hora em que o sol se põe ou da hora em que nasce. Gosto de ir à praia à noite. Gosto muito de acampar e dormir sobre as estrelas, gosto de nadar nos rios. Gosto de gaspacho e migas e café de cevada. E gosto de ir às coffee shops da baixa. Gosto da baixa e de aspirar lisboa. Gosto de lisboa e gosto de gostar de lisboa. Gosto de iogurtes naturais, porque são naturais e não há nenhum engano psicologico quanto ao seu sabor. Gosto de queijo. Gosto de guitarras e mais recentemente apercebi-me de que gosto de violinos. Gosto de andar, e gosto de ser turista. Gosto de ver e ouvir e tocar. Gosto de conversar, gosto muito de conversar. Gosto de pintar as unhas de verde alface e cinzento, e gosto de saias. Gosto gigantescamente de Vans e de cortes de cabelo. Gosto de Linda Martini de Manuel Cruz e mais recentemente de Feromona. Também gosto de Donna Maria, de Deolinda e de Orquestrada. Gosto de beber amarginha no Camões na penumbra da tarde com a Beatrice e gosto de ser escuteira. Gosto do The OC. Gosto muito da minha Faculdade e gosto muito do meu curso. Gosto muito da C, e da P, e da R e da outra C e da outra R e da A. Gosto muito de malas, de todas e mais algumas malas, e gosto de vestidos. Gosto muito de macacos. Gosto do cinema francês, do Louis Garrel e da Eva Green. Gosto do Tim Burton e do Woody Allen. E gosto do Jack Sparrow. Gosto de beber chá e gosto de bolo de chocolate. Gosto de Coca-Cola quando lhe tiro o gás. Gosto de costurar. Gosto de fotografia, e gosto de ir à Bertrand com a C e ficar lá horas e horas. Gosto do Tejo Bar e de quem lá vai. Gosto dos estrangeiros. Gosto do traje académico e da tradição académica e da farda dos escuteiros e dos rides que fazemos. Gosto de cozinhar massas e de inventar molhos. Gosto dos concertos a que o M me leva no arcádia e gosto do Algarve. Gosto de casas com poucos móveis e poucas coisas. E gosto de estar na minha. Gosto de desenhos animados e de andar de bicicleta. Também gosto de andar de patins.
6.9.10
dis.like
Eu não gosto de canja okay? Nem gosto de sardinhas nem de amêndoas da páscoa. Nem gosto de coelhos, por duas razões, primeira, porque sabem mal, segunda, porque são animais fofinhos de mais para irem ao forno. Também não gosto de bolas de berlim nem daquele creme de ovos nojento, isto engloba também os Dons Rodrigos, ainda que no outro dia tenha acordado com o desejo de comer uma bola de berlim, devia ser para a vomitar a seguir. Não gosto de sol nem de altas temperaturas, logo, o verão para mim não é a época mais feliz do ano, até porque começo a sangrar do nariz. Não gosto de de blusas demasiado justas, nem de sapatos demasiado apertados. Não gosto de ter o cabelo solto quando está comprido, não gosto de usar anéis nem colares, dão-me claustrofobia. Não gosto de gelatina, nem de cerveja, embora às vezes beba cerveja. Não gosto de cores demasiado claras, nem gosto de cor-de-laranja. Não gosto que passem a barreira entre os meus eu's, e não gosto que invadam o meu espaço sem que para isso tenham sido convidados. Não gosto de ver o telejornal, nem de saber as notícias do mundo, não gosto de discotecas, não gosto do barulho dos carros, nem de portas a fechar. Não gosto de sítios demasiado pequenos, e não gosto de estátuas. Não gosto de répteis, embora sonhe com eles muitas vezes. Não gosto de arroz, nem de atum, embora me veja obrigada a come-los muitas vezes em campo. Não gosto de leite. Não gosto de ananás, nem de pombos. Não gosto de batom. Não gosto de unhas demasiado compridas, nem com gel. Não gosto de brincos compridos. Não gosto de tirar sangue, não por ver sangue, mas por ver a agulha a espetar-me a pele. Não gosto de ilusões utópicas, e gente de mau génio. Não gosto de maus fígados também. Não gosto de coisas demasiado doces, nem de coisas demasiado perfeitas. Não gosto de iogurtes de pêssego, nem de laticínios de soja. Não gosto de ver comédias, nem no cinema nem no teatro. Não gosto de ler histórias de amor, com finais demasiado felizes. Não gosto dos simpsons, nem do sistema solar. Não gosto de matemática. Não gosto de traições, e não gosto de laranjas, nem gosto de rosas. Não gosto de carros demasiado rápidos e não gosto de pessoas demasiado lentas. Não gosto do governo nem dos partidos de direita. Não gosto de amigos por conviniência, nem gosto de jogos de cartas. Também não gosto de confusões.
5.7.10
last day at neverland.
mission accomplished. Esta não é a melhor terra do mundo, não tem as melhores pessoas, e está muito longe de ser um ponto de referência em qualquer mapa geográfico.
Mas foi aqui, foi sempre isto. Foi este chão que me viu esfolar os joelhos e subir às árvores, foi aqui que comi figos ao entardecer, foi aqui que dormi nos primeiros anos de vida. E todas as minhas memórias, boas e más, se resumem à Casa que me vê partir e chegar tantas vezes.
À onze noites arrastei-me miseravelmente até cá, na esperança de recompor de novo todos os pedaços que me faltavam. esta noite, depois de onze noites, sou a mais valiosa porcelana da china. Não valho nada, mas o meu valor é inquestionável. Uma árvore não explica os seus frutos, embora goste que lhos comam, dizia Torga.
Eu digo, até amanhã Casa. E na mochila que trouxe com os vestidos, os livros e os ténis rotos, levo agora a terra do nunca toda lá dentro, com o Peter Pan, o Capitão Gancho, o barco que voa e os miúdos perdidos. Levo na mochila o rio da minha terra, porque a minha terra tem rio, levo o que está do outro lado, levo o bar da praia e a praia, e a bicicleta, e a montanha, e todos os espíritos selvagens que deliciosamente me preencheram a alma.
Até amanhã, porque os amanhãs são sempre novos dias. E os pássaros voam, sempre.
3.7.10
30.6.10
diários da terra do nunca, dia sete.
Cheguei até aqui. Sem conclusões, sem planos, sem caminhos.
Cheguei até aqui com histórias, muitas.
Acaba-se quase o tempo e quando sair daqui saio na verdade novamente sem grandes conclusões de futuro, mas tenho o caminho de volta que é de ida, tenho o caminho que será sempre o que eu quiser que seja, para me receber ou para me deixar partir. Sem grandes conclusões, porque isto aqui, tudo isto aqui não precisa de conclusão nenhuma. O sol nasce, faz calor, e o sol põe-se ao fim do dia, e a melhor lembrança com que fico é de ter sido ao menos pessoa do meu próprio tempo e ter feito tudo o que tenha querido fazer.
E há roupa a lavar, e um cão a pedir comida, uma bicicleta à espera de se fazer à estrada. E vou, para depois vir, sem nada, livre, pura. Sabendo somente uma verdade única; a única vontade é viver.
Quando partir, parto sem conclusões, mas conclusões? Quem é que precisa delas de facto?
Cheguei até aqui, despedaçada. Passaram-me os dias por dentro e curaram-me as feridas. Quando daqui sair já não tenho chagas, terei só as marcas da guerra. A guerra que não foi ganha nem perdida, mas falando de guerra, o quê que ela importa? Eu, andei de bicicleta por aí e o vento entranhou-se-me na pele, essa é a única metafísica com verdadeira importância.
e se perguntarem por mim, digam que fui aprender a voar e voltei a subir às arvores.
Cheguei até aqui com histórias, muitas.
Acaba-se quase o tempo e quando sair daqui saio na verdade novamente sem grandes conclusões de futuro, mas tenho o caminho de volta que é de ida, tenho o caminho que será sempre o que eu quiser que seja, para me receber ou para me deixar partir. Sem grandes conclusões, porque isto aqui, tudo isto aqui não precisa de conclusão nenhuma. O sol nasce, faz calor, e o sol põe-se ao fim do dia, e a melhor lembrança com que fico é de ter sido ao menos pessoa do meu próprio tempo e ter feito tudo o que tenha querido fazer.
E há roupa a lavar, e um cão a pedir comida, uma bicicleta à espera de se fazer à estrada. E vou, para depois vir, sem nada, livre, pura. Sabendo somente uma verdade única; a única vontade é viver.
Quando partir, parto sem conclusões, mas conclusões? Quem é que precisa delas de facto?
Cheguei até aqui, despedaçada. Passaram-me os dias por dentro e curaram-me as feridas. Quando daqui sair já não tenho chagas, terei só as marcas da guerra. A guerra que não foi ganha nem perdida, mas falando de guerra, o quê que ela importa? Eu, andei de bicicleta por aí e o vento entranhou-se-me na pele, essa é a única metafísica com verdadeira importância.
e se perguntarem por mim, digam que fui aprender a voar e voltei a subir às arvores.
27.6.10
diários da terra do nunca, dia quatro.
Ouvi ontem num qualquer programa de televisão, dum qualquer canal televisivo, que a paixão é... como a droga. Quando tentamos a desintoxicação temos que evitar os sítios onde sabemos que há tráfico, os sítios onde fomos felizes, onde sabemos que eles andam. Nem sempre conseguimos a desintoxicação, nem num caso nem no outro, porque? Porque não queremos de facto desintoxicarmo-nos dos bons momentos, do prazer, da felicidade de outrora? Porque não definimos especificamente que é o ponto final na história, e caímos, e voltamos a cair e queremos mais daquela droga que nos leva ao êxtase, mais daquela sensação de que podemos tudo ao lado de um único ser, igual aos outros todos. Como uma droga, igual a todas as outras. E então tornamo-nos um-sei-la-o-quê...
No fundo, é Foder e ir às compras.
(...)
26.6.10
diários da terra do nunca, dia três.
Curtas-metragens, Marta Rebelo
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
Escrever, Vergílio Ferreira
Caras a jovens poetas, Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf
15.6.10
Puf.
Vou meter isto muito simples: dói-me a cabeça. Já não suporto o barulho ensurdecedor da flauta do quarto ao lado que me transtorna a existência duas horas por dia (logo as que eu utilizo para dar descanso à alma). Na recta final dum, umas vezes longo outras curto, ano académico, ainda não sei o futuro que me reservam os deuses, mas uma coisa é certa, com apenas um trabalho por entregar lá pró próximo mês, sinto-me como se me tivesse passado um camião tire por cima. Aposto que a Excelentíssima Senhora me vai chumbar a EC. No fim de contas ela nunca foi com a minha cara, e bem se sabe como as aparências nesta sociedade são importantes. Para além disso o meu International Study Card teima em não ter as funcionalidades todas, e o departamento de Relações Externas está prestes a escorraçar-me, e isto porque o serviço público em Portugal não é eficiente! Tenho os livros empilhados em cima da mesa, e uma mala por acabar de remodelar. Por acaso a minha mãe no outro dia fez-me um xaile lindo, e isso alegra-me os ânimos, mas no fundo sinto-me o mesmo fracasso de pessoa. Estou a entrar em pânico só de pensar em Setembro, vou em busca do meu sonho, mas bem sei que os sonhos nem sempre são cor-de-rosa. Não me poderia sentir mais feliz, mas não me poderia sentir mais medrosa também; pelo país, pela cultura, pela avaliação, pela individualidade, pela liberdade (...) and so one. À parte disso ainda não consegui juntar o dinheiro para a máquina fotográfica que namoro há mais dum ano, nem o devo conseguir em tempos próximos. Lisboa segue igual e bela, uns dias com mais calor, outros com menos. Gosto muito de tudo, mas já me cansam estas malditas cortinas cor-de-laranja.
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