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29.10.11

They had light inside their eyes

I can't stand it any longer. I really miss you. I do, I really do. I miss every thing attached to you.
I miss you not calling me (because I didn't like to talk on the phone), I miss you texting me to tell me about Star Wars (that I never saw), I miss you searching what the hell was an happening (and explain me after, that you finally knew it). I miss you. I don't know what else to say. I can even miss a bit of those cold raining days. Because even the cold made me alive as you made me alive, and I guess, happy. I thought it would be simple. I would come here, and I would forget to feel, I thought the minute I left, everything would stand behind, and you would stay there just as a sweet memory. Well, let me tell you, I was wrong. I didn't forget to feel, actually I didn't forget anything. Not even a bit of you, neither your hands, your harms, your lips, your smile, your hair, your accent. Or the night we meet, or the trips we did, or the films we saw, or the parties we went, or the nights we had dinner or the walks or anything. Not even a bit of us.
I really miss you, and now I'm quite fucked up because we kinda have two countries and a bit of the ocean in the middle of the way and that is keeping things harder. But I can't fight it, I miss you.

2.10.11

Estava sozinha, na casa grande. Estava sozinha na casa grande e sozinha com ela mesma. Pegou na recordação dele, a da cabeça e a do armário. Aqueceu água, escolheu o chá e ferveu-o. Bebeu(-o), a ele, a recordação dele, a água fervida e o chá que ferveu. Pensou. Pensou enquanto bebia, bebeu. Recordou, lembrou-se do sorriso dele, das expressões dele, dos passos dele, das palavras dele. Teve saudades. Na casa grande sentia-se sozinha. Sem ele, com a recordação dele e o chá que ferveu. Tinha dores na garganta e o peito, na cabeça. Na cabeça, doía-lhe a alma, a memória, o pensar. Estava feliz ali, mas sozinha na casa grande. Via-o, dentro da cabeça, via-o nitidamente e a nitidez da cabeça de pouco lhe servia. Tentou encontra-lo, em algum lugar onde afigurasse no seu quarto. Não afigurava nada, o quarto mudara e dele nada era palpável. Tentou apagar as luzes e escrever, escreveu, de luzes apagadas a memória era mais sensível. Escreveu, escreveu, escreveu. Do vago do seu quarto, nada dele restava. A casa mudara, ela, mudara de casa e esqueceu-se do seu lugar.

8.9.11

acaba Agosto. Partidas, reencontros, argumentos, conversas, despedidas, abraços, beijinhos, ir, voltar, encaixotar a vida, dizer adeus e olá. Foi forte. Foi quente. Foi devastador.
entra Setembro. Mês que por excelência que sempre detestei. Começavam as aulas, dizia-se adeus a velhas coisas, entravam novas, por norma, o começo das aulas e o reencontro com a rotina, o começar do zero. Este ano porém, as coisas afiguram-se-me diferentes. Olho para Setembro vigorosamente, para as aulas, para a Cidade, para a Casa, para a gente, para os lugares, os Livros, os projetos, os planos. Este ano Setembro lava-me a alma, num novo (re)começo que me apaixona. Na mesma rotina o quotidiano muda, dá voltas, deu voltas, e o começo do mês atrai energias positivas. Se não voei muito alto até agora, pode ser que em Setembro apanhe balanço. De volta a Casa claro e, feliz, essencialmente.

19.8.11

Crónicas de Cov # 10

Lá em casa éramos quatro. Às vezes, mais, cinco, seis, sete. Chegámos a ser sessenta. Também chegamos a ser nove. Lá em casa éramos quatro, mas às vezes éramos mais. E às vezes, quando éramos mais, não havia nada para fazer, mas havia Glüe wine, e havia a músicas dos clássicos da Disney cantados em todas as línguas quantas as nacionalidades que bebiam. Certa vez, chegámos a cantar "Somente o Necessário" do Livro da Selva, em seis línguas diferentes. Rimos como perdidos quando chegou à parte francesa. E os espanhóis ganharam pontos. Em alemão ficava estranho, em italiano lembrou-me os anos 40. O inglês foi okay. E lá estava eu a defender a honra portuguesa. Riram-se todos. E mal teriam entendido se não conhecessem também eles a mesma música. Lá em casa éramos quatro, às vezes mais. Estudantes, presos da liberdade do estrangeiro, então ía-mos para a sala, bebíamos vinho quente vindo da Alemanha, e cantávamos músicas da Disney pela noite fora. Não era a nossa maneira de nos divertirmos, era antes a nossa maneira de sermos felizes. Lá em casa éramos quatro, às vezes mais, chegámos a ser sessenta. Mas hoje, que sou só eu, vou ao youtube ouvir de novo a música do Livro da Selva, e oiço-a em todas as línguas que conheci. E vêem-me nomes à cabeça; Yuji, Daniel, Margaux, Lívia, Julia, Christina, Miriam, Valentina, Linda, Anaïs, Julien... E não fico triste, antes sorrio com amor, e mando-lhes beijinhos, porque hoje sei-me, espalhada pela Europa, com a Europa dentro de mim. Valeu-me isto. O livro da Selva, hei-de recorda-lo, sempre.

Fica o gostinho, dos que diziam « Mais Putain, Ces't la merde! »

17.6.11

Talvez por ter visto um filme muito cheasy, talvez por ser a última vez que te vá ver, talvez por serem as últimas semanas aqui, talvez porque ainda que passes nesta que foi a minha rua, e batas a esta que foi a porta da casa onde eu vivi, não me encontrarás mais encostada à ombreira para te mandar entrar, talvez porque não te irei fazer mais chai, nem cafés, talvez porque não vermos mais filmes no sofá cinzento, talvez porque o gato não me dará mais comichão, talvez porque não haverá mais planos para o fim de semana, talvez porque não haverão mais fotos, talvez porque não haverão mais conversas, talvez porque não haverá mais procura de definições de palavras em línguas que nos são estrangeiras, talvez porque não haverá mais vinho tinto no Pub chique, ou Rosé na sala, talvez porque não haverão mais festas de anos da Francesa no jardim da casa onde que vivemos, talvez porque não haverão mais noites em que me verás bêbeda, ou com frio, ou me darás a mão para um passeio, ou me contarás histórias e me falarás dos tantos países do mundo que já viste. Talvez porque não cozinharás mais coisas que me são estranhas ao paladar, mas não te o são a ti, talvez porque não me ouvirás mais a falar do meu país, talvez porque não me contarás mais os teus planos do próximo verão a escalar montanhas, talvez porque não te rirás mais da minha mochila com insígnias, talvez porque não me mandarás mais mensagens, ou me tocarás no cabelo, ou me dirás que gostas dos meus olhos. Talvez porque não te verei mais beber chá com leite, nem tu te rirás de eu beber café de manhã. Talvez porque nunca mais entraremos neste choque de culturas em que nos deixamos embrenhar... Nós até sabíamos que ia haver um fim, até sabíamos, mas quem é que ligou? Ele esteve (sempre) lá, e está agora ainda mais presente. Mas talvez porque nunca nos importámos, a liberdade era tanta. E agora o fim dorme comigo. Mas eu sorrio-te, do alto da angustia de te dizer adeus, sorrio-te porque me fizeste feliz, e aceno-te para te agradecer, e viro-te as costas para te recordar encostado à mesma porta, à qual tantas vezes também eu me encostei. Tu já não vês, mas parto com chuva nos olhos, e sorrio-te no entretanto, guardarás de mim apenas a fotografia mental de uma partida alegre, jovem, correcta. O resto, só a mim dirá respeito, e tu, terás sempre uma festa da aldeia qualquer onde me viste pela primeira vez...

10.6.11

Promessas de amor, quem as tem?!


Nem nunca sequer me passaram pela cabeça. O amor, aquele, o do Esteves Cardoso, já não é o que era, nem nunca o foi, levo-me a crer.

- Estar chateada com o amor?! - Não, nunca. Como me poderia eu chatear-me com o amor, logo com ele. Não. Com o amor, nunca me hei-de chatear. Com as pessoas, sim, talvez. Com o amor não. Que culpa terá o amor, de ser mal usado, entendido, pouco respeitado? Não, idiotisse seria culpar o amor pelas atitudes do Homem. O amor, nada tem a ver com maus fígados, paciências limitadas ou até mesmo testas franzidas.

Mas isto, pouco até tem a ver com o amor, aquele, o do Esteves. Pouco tem a ver, porque aquele, o amor do Esteves, pouco terá a ver com-nós. Com esse amor, nunca me chatearei, contigo, talvez. Ridículo seria que me chateasse com outra coisa qualquer; circunstâncias, ventos fortes, desamor, amor, trovoada... Porque, tu, ou até eu, é que não estamos em sintonia. Mas estar(mos) em sintonia, nunca sequer me passou pela cabeça.

São coisas. Às vezes sorris-me e está tudo bem, e às vezes sorris-me na mesma, mas não está tudo bem. Se calhar sou só eu, ou se calhar és só tu, na verdade, somos só nós. E sermos só nós já engloba muita coisa. Mas sermos outra coisa qualquer que não nós, nunca sequer me passou pela cabeça.

Mundos diferentes? Sim conheço. É como o amor do Esteves, nunca ninguém o viu, ouviu, ou sentiu (ou terão sentido?!), mas sabem que existe. Eu também sei que existe. Tu, sabes que existe?! Sabemos que existe, mas nunca o sentimos (ou terás sentido? ou até eu, terei sentido?!). Mundos diferentes? - Absolutamente. Olho-nos tantas vezes, e em nenhuma delas encontro pontos comuns (que é isso de pontos comuns?!) - sinceramente, estou-me pouco importando para isso. Mas levar-te mais profundo na alma, ou até, talvez, no próprio corazção, foi coisa que nunca sequer me passou pela cabeça. - Porque?! - Mundos diferentes (mas de mãos dadas funciona(m) bem).

4.6.11

Crónicas de Cov #5


"O meu país tem uma coisa que o teu não tem" - disse-lhe ela - As amendoeiras em flor nos primeiros dias de Fevereiro. Ele sorriu, mas nunca havia visto amendoeiras em flor, nunca havia visto sequer amêndoas com casca. Ela pensou o quão triste seria aquilo, viver num sítio tão vasto, e nunca ter vivido para ver amendoeiras em flor. Ele disse-lhe que ali não cresciam, que a terra era má. Ela sorriu com tristeza, não compreendia como era possível viver feliz assim, numa terra tão medíocre de vida. Sorriram um ao outro, na ternura firme dos estranhos que se amam, completos de nada terem em comum. Ela era do Inverno, ele não.

31.5.11

o amor é... chuva

Lisboa, és casa que me acolhe. Embalas-me na mais dura verdade desse sentimento tão lusitano, inexplicável em qualquer outra língua, qualquer outra cultura, qualquer outro brilho no olhar e oco no coração, que não as pobres, as tuas, as nossas, saudades. Da casa, todas as que preservas, das pessoas todas que em ti vivem, dos sorrisos todos que crias. Lisboa, és alma livre, capa negra de um qualquer estudante que em ti brilha, em ti chora, em ti cresce. Lisboa, és mãe de filhos; poetas, pensadores, artistas, quem em ti se inspiram, e qual outra inspiração de qualquer outra parte do mundo, aos teus pés nada vale. Lisboa. Sinto-te a falta como sinto necessidade de respirar, e se o ar é tão podre. Sinto-te uma falta jamais preenchida por nada de outro sítio qualquer, és tu que trago ao peito, eternamente. Quero correr para ti, mas não quero abandonar os calafrios da pele que encontrei, quando as borboletas me voltaram à barriga. Quero-te passear nas entrelinhas, viver contigo os pôr-do-sol mais lindos que vi, quero voltar ao teu cheiro inigualável que me faz tão feliz, mas sinto-me entre duas paredes e quatro espadas. És tu Lisboa a quem eu pertenço, mas vim encontrar aqui almas que me fazem voar. Como hei-de viver sem ti Lisboa? Não, coisa que nunca me há-de passar pela cabeça, mas como hei-de viver sem as borboletas? Fazes-me viver neste paralelismo interdito que nunca se virá a resolver por bem. Não sou de cá, nem nunca os estrangeiros serão teus. Os outros, não te compreendem a essência, tudo o que motivas, tudo o que envolves, tudo quem és. Não Lisboa, eles não te hão-de compreender, não como nós, não como uma criança que em ti brinca, em ti salta, em ti, é feliz. Eles não compreendem, o porquê de te amarmos, mas nós amamos-te em toda a tua forma, com toda a nossa verdade. Existir longe de ti, não, não faz sentido.

30.5.11

I'll always have this moment.

And the memory of your smile when you look at me, when you hug me, when you give me your hand for a walk, when you're close and I feel the whole world is just there in your arms. I'll always have your touch on my skin, even when the distance between us will be so big that we can't remember each other faces anymore, even if our ways go different, even if we lost each other somewhere, or to someone. We will always have this moment, and a raining day with a cup of tea.

22.5.11

sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam
Sempre chegamos, ainda que o sítio aonde nos esperam seja longe do nosso sítio. Ou que quem nos espera não nos espere somente com o corpo. Ou ainda que, nós não queiramos chegar a nenhum sítio por já termos chegado a algum lado. Ou por ainda não termos, não nos queremos mudar muito do sítio aonde estamos. A verdade é; chegamos sempre a algum sítio. Quer nos esperem ou não, ou se nos esperam muito ou pouco ou, se nós esperamos algo. Chegamos sempre a algum sítio. E eu, já cheguei a muitos. E cheguei a este. E agora na hora de partir, tenho dúvidas se não era melhor ficar no aconchego da tua pele fria de Inverno e do teu corpo estrangeiro, em vez de partir outra vez, para algum sítio aonde me esperem com desassossego nas cabeças. Para chegar aonde estou em memórias, para depois ficar por lá em vida, a esperar que não te afastes muito, que a distância é da alma é mais comprida do que as milhas que nos delimitam ambas as vidas das quais nunca faremos parte. Porque seremos sempre um amor estrangeiro à primeira vista, perdidos no primeiro sorriso da despedida, sabe-se-lá onde...

15.5.11


Eles terão sempre Paris, a Marta Rebelo terá sempre Tallinn na Estónia, e eu, eu terei sempre aquela vilazinha perdida algures depois da cidade, lá no meio da Inglaterra. Sim, terei sempre isso, essa memória guardada no âmago das emoções; e as borboletas a baterem as asas; e os vendavais que as mataram todas. Eu terei sempre Russell Close, na Inglaterra, e um gato malhado à porta da casa grande.

7.5.11

Minha querida,
se te escrevesse hoje uma carta, começaria assim:

Os sonhos acontecem, sabes? Acontecem, sim. Sempre. Se os desejares por dentro, do mais dentro de ti que possas alcançar; os sonhos acontecem. Se a tua cabeça não parar nem por um segundo de sonhar, se o teu corpo não parar de se mover, se tu não parares de acreditar; os sonhos acontecem, sempre. Às vezes pode ser até do universo, acredito. Mas tantas vezes é a nossa própria força do querer, deste querer tão grande, com todas as forças, que nos transcende, e nos transcende tanto. E se desejares com quanta força tens, e tens-la bastante, os teus sonhos, acontecem. Gostava muito de te dizer quando, minha pequenina, mas isso é algo que me é desconhecido. Às vezes, podem demorar anos, mas continua a acreditar com a toda a tua verdade, e verás que os sonhos não são só para os outros, eles estão ai todos, muito dentro de ti, muito senhores de si, muito teus. Manda-os cá para fora, fá-los voar e eles, asas ganharão. Minha querida, às vezes choras, e eu não te limpo as lágrimas, nunca te limpo as lágrimas, e tenho-te visto chorar tantas vezes, e as lágrimas caiem-te sempre cara a baixo sem que ninguém te as limpe. E isso transtorna-me o bastante. Porém, entendo que as tuas lágrimas têm que sarar as próprias feridas que criaste, que os outros te criaram, não lhes ligues, são cruéis. Os outros, conseguem ser por vezes muito cruéis. Não o sejas tu. Atenta sempre nos teus primeiros princípios, mesmo que te digam que estão mal, não estão, e principalmente nunca te desiludas a ti, antes de pensares desiludir os outros. Pois uma vez que te consigas desiludir a ti, os outros não terão já remédio nenhum. Minha querida, descobri há pouco que o sal do mundo é doce; e não deixa de requerer um certo engenho retirar o doce ao salgado, o qual tenho vindo a tentar desenvolver. Isto para dizer apenas uma coisa: Os sonhos acontecem, mesmo, se acreditares, primeiro em ti, depois neles.

30.4.11

o segundo texto de um daqueles que se tornou um dos meus livros favoritos começa assim:

Se acreditas no amor à primeira vista, nunca deixes de olhar

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman terão sempre Paris. Eu terei sempre Tallin, na Estónia. Qual de nós não tem um amor forasteiro terminado numa lágrima perdida num aeroporto? Pela mão de Michael Curtiz nós teremos sempre aquela frase, aquele cenário africano e a imaginação de um olhar cruzado em qualquer lugar do mundo. And still, we will always have Paris...

Se acreditas no amor à primeira vista, nunca deixes de olhar. Quando chove, levanta bem os olhos e o chapéu-de-chuva, mesmo que voe ou te molhes. Quando o sol derrete a vista, usa óculos que não sejam escuros de mais. Quando deixas um país, garante que sorriste enquanto o visitaste. Quando abandonas uma cidade, certifica-te de que não deixaste pro lá um amor verdadeiro esquecido.
Levanta os olhos. Se semicerrares o olhar, serás fria por fora e sozinha por dentro. Esquece o chão, mesmo a mais belíssima calçada portuguesa não te merece a concentração, se acreditas no amor à primeira vista. Não percas tempo nos pormenores das tuas revisitadas dores, descendo a rua como se pairasses apenas e sem saber quem te rodeia.
Se acreditas no amor à primeira vista, nunca deixes de olhar. Encara os olhos frontais, directos, daqueles que entram numa máquina fotográfica e o fotógrafo sente-se espiado. Não lhes dês outra direcção senão o olhar do outro, sem curvar num arrufo de amantes à direita ou numa face vagamente conhecida à esquerda. Em frente, de frente. Não tropeças. Não cais. Nunca deixes de olhar. Nunca deixes que outro sentido te roube a atenção.

O melhor dos amores estrangeiros à primeira vista é não saber se serão avistados uma segunda ou terceira vez. É essa curiosidade apimentada e a agonia antecipada do fim que mal começara. O mundo transtorna-nos a barriga e afinal são só borboletas a bater as asas lá dentro. E cada segundo vale muitos mas não vale nada, está ali, ali ao fundo, do lado direito daquela casa logo, logo a seguir, não vês? O fim está logo ali. Mas não está em lado nenhum.

Tudo isto estava guardado naquelas vinte e quatro horas e mais segundo nenhum, que a viagem segue o rumo e não espera por ninguém. Mas se acreditaram no amor à primeira vista, e nunca deixaram de olhar, dar seguimento à viagem ignorantes da descoberta recente é cegueira idiota. Não porque produtora de muitas ideias, mas por não criar nenhuma.

O amor à primeira vista é pateta, mas é o melhor de todos. O amor à primeira vista é irracional, mas é o melhor de todos. O amor à primeira vista é igual aos outros. Só que chega muito mais depressa e sem alvitre. No amor à primeira vista desliza-se por uma duna de algodão doce, não se cruzam agendas para jantar um dia, faz-se um dia todo novo a partir dos cacos do coração que agora é inteiro; dão-se beijos à cinema como se estivessem num cartaz a anunciar o filme.

Mão com mão. Toda a gente sabe que os enamorados por amores à primeira vista e sobretudo quando ainda estão nas primeiras horas desses amores, andam de mão dada. Para não deixar o outro fugir? Para dar sossego à pele que reclama o outro através de todos os poros que ameaçam não respirar se não lhe sentirem a pele? Para agarrar com os dedos todos aquele momento que é único, ainda que o seu final seja serem felizes para sempre?

O amor à primeira vista, quando não se deixa de olhar nunca, é imprudente. É descuidado consigo, porque dá-se o cuidado todo ao outro. Imprudente.

Os beijos destes amores são especiais, são novos, são droga, são vício, são maravilha, são desastre, são um avião a cair-lhes aos pés e eles não largam os lábios, são beijos de um amor à primeira vista. Que sabem melhor por causa do bater das asas das borboletas lá em baixo, na barriga.

Atrás de um beijo vem sempre mais um, mas veio também o caminho de volta à civilização. Ou à solidão? Já não rodopiavam porque em silêncio perguntavam ao outro se queria repetir ou se mataria as borboletas. Ou se elas se suicidariam, também acontece.

Se acreditas no amor à primeira vista nunca deixes de olhar. E não recordes a prudência. Terás sempre aquele beijo batido por asas de borboletas.


em Curtas Metragens, Marta Rebelo

24.3.11

Voltar é estranho: os restos do que passou chegam até a perturbar-me de novo, mas torna-se uma perturba doce; nostálgica; saudável. Os cheiros estão tal e qual, iguais(inhos). Tudo mudou, mas manteve-se tudo igual, na penumbra da minha partida, como da minha volta. É estranho voltar; abraçar de novo o que com tanta força quis deixar para trás, mas que agora acolho com ternura. E nenhuma das coisas se moveu do mesmo sítio, nem o meu rasto; nem o meu rasto se apagou. Voltar é estranho, mas é tão bom, tão reconfortante, tão humano, que à data da partida levarei de novo Lisboa agarrada à mágoa que vai comigo, para depois voltar, cheia de outra mágoa diferente...

22.2.11

"Obrigadinha, então"
Quero agradecer-te, por toda a felicidade que me tens permitido no mundo que criaste. A ti devo as pessoas mais fantásticas que se atravessaram na minha vida, devo todas as noites em que adormeci coberta por um manto de estrelas num céu escuro, a ti devo o medo de andar à noite ou de tentar pela primeira vez o leme de um barco. A ti devo tantas dores nas pernas, tantas bolhas nos pés, mas um coração tão cheio que não há igual. A ti devo os nós e nós. A ti devo a natureza que me fizeste conhecer, explorar e entender, devo as mais alegres canções e os mais verdadeiros sorrisos na cara de todos os que me aquecem a alma. A ti devo uma vida cheia de aventuras, de jornadas às vezes árduas, mas de um caminho que não troco por nada. A ti devo a vida, esta vida que criaste, para deixares o mundo um pouco melhor do que o encontraste. Obrigado Grande Chefe, obrigado por nos teres deixado um mundo tão cheio de coisas lindas.
Isto é amor. E isto também.