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5.2.12



havemos de engordar juntos. havemos depois aceitar-mo-nos como somos; de beijarmos as nossas chagas, de passarmos a mão na ferida com um toque doce, de rirmos das nossas quedas. havemos de engordar juntos, e de andar de mão dada por ai. havemos de ir a muitos sítios; juntos, havemos de dormir muitas vezes nos sofás das casas onde vivermos. havemos de engordar juntos; de ler juntos, de correr juntos, de ir às compras juntos, de beber do mesmo copo e comer com o mesmo garfo. havemos de engordar juntos e de andarmos nus pela casa sem pudor, de nos olharmos juntos as imperfeições e as celebrarmos. havemos de engordar juntos e tomar banho juntos e dormir na mesma cama, havemos de sentar-nos no mesmo sofá a contar as mesmas histórias, aquelas onde vivemos. 

12.11.11

Tempo do Tempo

Eu não sou do tempo em que os senhores abrem a porta para as senhoras passarem. Não sou do tempo em que os senhores se vestiam de fato e chapéu alto para irem ao teatro. Não sou do tempo em que os senhores formavam grupos nos cafés e falavam sobre a liberdade e as revoltas independentes. Não sou do tempo em que os senhores cortejavam as senhoras atenciosamente e lhes escreviam cartas, até. Não sou do tempo em que se pensava nas coisas por opressão ao pensamento. Não sou do tempo em que as senhoras aprendiam costura e os senhores iam para a Universidade. Não sou do tempo do espartilho, nem das saias compridas, nem dos bolos ao domingo. Eu, sou de outro tempo. De um tempo cosmopolita, moderno, dizem. Um tempo que tem tudo para dar certo: já não se abrem portas às senhoras pelo contrário, lançam-se todos a ver quem entra primeiro onde quer que seja. Sou de um tempo em que as gravatas e os chapéus ou são em prol do estilo ou denominam uma elite. Sou de um tempo moderno, em que as revoltas são feitas a partir da cama ou do sofá através de um teclado. Sou de um tempo fugaz, em que não se presta atenção a nada nem se escrevem cartas nem se corteja nada, ninguém, coisa nenhuma. Tudo é feito em massa e como tal, se algo não presta compra-se outro. Tudo se compra, nada se possui. Eu, sou de um tempo do futuro, em que os pensamentos nas cabeças de cada um não são unos em nada, acredito, que sou dum tempo do medo; um medo interior, arrasador. Eu, sou de um tempo em que enquanto mulher sou livre de ir à universidade e outras mulheres como eu vão à universidade, é-nos hoje possível este sonho do conhecimento no domínio feminino. Mas são nessas mesmas universidades em que os alunos são apenas meros instrumentos mecânicos, produções em massa irrelevantes para o que quer que seja. Ensinam-nos por velhos métodos, sempre sem verbas que nos aprofundem o conhecimento e sempre com os mesmos contextos. Eu sim, sou de um tempo moderno, este tempo tão moderno que já esqueceu todos os valores possíveis. Onde não se abrem as portas às senhoras para elas passarem mas ao invés, as maltratam e as desrespeitam (porque somos todos iguais?) - há diferenças entre nós - sou de um tempo do mais moderno que há: as mulheres, podem agora usar calças, calções, mini saias e saltos altos. E ainda assim estão mais vazias do que nunca. Não se constrói nada, nem famílias, nem valores, nem paixões às coisas. As pessoas, jogam-se fora umas às outras todos os dias. E embora as mulheres já não usem espartilho, continuo a vê-las ao fogão todas as noites, continuo a vê-las serem mães e a fazerem bolos ao domingo, ainda que usem calças de ganga e saltos altos. São melhores, mais independentes, com mais conhecimentos. Sim talvez, mas os filhos em vez de beijinhos de boa noite, têm jogos de computador e em vez de abraços de bom dia, têm roupa nova. Já ninguém sobe ás árvores e come flores amarelas, porque subir às árvores pode fazer infecções nos joelhos e comer flores amarelas tem micróbios. Eu, sim, vivo num tempo moderno. Posso sair à noite, beber, conversar, dançar, usar mini-saias, calções e saltos altos, posso pintar os lábios de vermelho e beijar quem quiser, mas depois, ninguém me abraça nem me abrem a porta quando quero passar. Eu sim, vivo num tempo moderno, num mundo moderno onde já ninguém sabe o que é gostar, onde todos desaprenderam os valores mais básicos a uma sociedade. E ainda assim, eu que vivo num tempo moderno, se calhar até trocava os saltos altos pelo espartilho se isso me desse mais conforto às emoções... 

11.8.11

Um dia contaram-me uma história. Falaram-me de princesas e dragões e castelos e heróis e das lutas que as princesas e os dragões e os heróis enfrentavam para atingir os fins. Hoje, ainda acredito nas princesas e nos dragões e nos heróis e nas intempéries. Vivemos em guerra(s), individuais, colectivas, pessoais, exteriores. Somos princesas, somos dragões e heróis. Somos tudo. Vamos sendo sempre tudo. Somos maus, nobres e vis. Somos assassinos. Mata-mo-nos os sonhos, matamos os dos outros, desconstruirmos os mundos de encantar que fomos criando dentro da cabeça porque de repente vivemos na realidade. Ninguém sabe explicar o que é a realidade, mas sabe-se que vivemos em algo com esse nome. E se a realidade fosse encantada? De certo, continuariam a haver princesas, dragões e heróis. Sou uma princesa, apodrecida. Dentro de um castelo a ruir, com a escada partida, com o encanto dissipado. Destruí o encantamento a mim mesma; iludi os olhos com cor-de-rosa que se torna negro a cada dia. Sou um dragão a cuspir fogo, que mata, que fere, que mói, que corrompe. Verde, com asas, que não sabe voar. Sou um herói sem espada, sem cavalo, sem armadura, sem botas. Luto num contra-vontade da vontade. Num ir e voltar que nunca chegará ao castelo nem salvará ninguém. A história virou já tantas páginas, tantos nomes, tantos lugares, mas a moral continua a mesma; triste, solitária, sem destino.

31.7.11

"Já fui a Paris" poderia ser um bom começo - para qualquer coisa. Um título qualquer, para um livro sobre viagens, um filme sobre o(s) amore(s), uma crónica na revista cosmopolita da cidade grande, uma mensagem num post-it amarelo colado ao frigorífico na cozinha, ou uma frase riscada na lista das coisas por fazer. "Já fui a Paris" como quem vai ali à esquina comprar tabaco, como quem foi ao supermercado fazer as compras do mês, como quem tomou café hoje de manhã. Como quem já fez alguma coisa. Eu, já fui a Paris. Verdade. Também já fui a Lagos, e ao Elevador da Glória, e à casa da vizinha do lado pedir coentros. "Já fui a Paris" pode ser já ter ido a todo o lado que não Paris propriamente, e voltar. Paris, é, neste caso, subjectivo.
Eu já fui a Paris, na Inglaterra, já até vivi lá durante um certo tempo e, já estudei lá em inglês, já vi as cidades à volta, e falei com pessoas de lá, já fiz, também, lá amigos, uns melhores, outros piores e, já me ri e chorei e desatinei, e voltei a rir. Ficar alegre e triste mediante as intempéries sociais e psicológicas, e depois esquecer isto e ir fazer o jantar no fogão branco dos anos oitenta lá na cozinha. Também andei lá de bicicleta-táxi e comprei as coisas mais estúpidas. Também conheci o melhor motorista de autocarros do mundo, e disse-lhe olá. Eu, já fui a Paris, e já lá vi filmes e gostei de coisas e de pessoas, e depois já me senti triste por os filmes terem acabado e as pessoas terem ido embora, porque eu depois me fui embora, para Paris.
Eu, já fui a Paris, na França, e já lá me roubaram coisas, e conheci os artistas mais originais, e vi performances, e comi bolos franceses, e dormi num sótão de uma casa francesa, e vi que as baguetes acontecem, como acontece irmos ali beber a bica. Já fui a Paris, fazer coisas de franceses, e andar em sítios para turistas, já tirei lá fotografias, e já filmei lá coisas, e já escrevi de lá. Já fui as compras e comi no árabe francês.
Eu, Já fui a Paris, em Portugal, ver peças no D. Maria II, e tocar guitarra no Tejo Bar. Já fui à Casa dos Frades ver a Catarina abrir a goela e encantar as almas. Já fui a Paris, comer ali no Café Gelo, o melhor pão com chouriço de Lisboa, e de caminho passei pela Ginjinha, e acabei a noite na Crewhassan. Já fui a Paris, ali na Faculdade de Letras, ter aulas no auditório II e ler as grandes obras clássicas muito aclamadas que poucos ou nenhuns compreendem. Eu, Já fui a Paris, passear pela Baixa e descobrir as mais fantásticas coisas pouco visíveis aos que passam com pressa em direcção ao metro.
Eu, Já fui a Paris, ali no resto do mundo, com a mochila às costas, e as jarreteiras vermelhas. Subi e desci montanhas, que podiam tanto ser a Serra da Estrela como os Alpes suíços. Já fui a Paris, e fiz fogueiras no Barão de S. João, onde encenei peças e promovi o guarda-roupa. Já subi a parte francesa de Pampilhosa-da-serra onde me deram fruta com a pronúncia do norte no forte calor de Agosto.
Eu, Já fui a Paris, como quem vai e volta, e volta sempre, e torna a ir. Porque os que descobriram o mundo, também foram a Paris, e perderam-se em Paris, e tornaram a vir. Como as músicas populares que falam sempre numa certa esperança da volta. Eu, já fui a Paris, na França, e a Paris na Inglaterra, e depois voltei, pois não há Paris como Lisboa.

28.7.11

Olá Emília,
Como estás? A vida e por aí fora? Como vai a pele? Os olhos? As mãos? A língua? O corpo?! Ainda consegues falar?! Andar? Correr? De que cor vês o céu? Mostras os dentes quando sorris?! Já caíste dos sapatos abaixo?! Se não, como se cai?!
Olá Emília,
Como estás?! - Tem chovido?! Nevado?! Tovejado dentro da tua cabeça?! - Sim?! - Continua a ler.
Olá Emília.
És uma princesa, acredito sinceramente nisso. Sinceramente digo, com todas as minhas convicções. Sinceramente. Mas, perderam-te o brilho, o mundo, digo.
Olá Emília, falta muito para voares?! - Sim?! - Continua a ler.
Olá Emília, minha boneca de trapos, estás completamente esfarrapada. Quem te esfarrapou?! Porque o fizeram?!
Já não consegues falar. Há quem brilhe mais que tu, querida Emília.
Logo tu que vias o mundo a essa tua maneira, tão tua, tão própria, tentaram, e logo a ti, mostrar-to de outra, não te masses tentando mudar a cor que os teus olhos vêem, ver com outros olhos, que não esses, não faz, sentido nenhum.
Querida Emília, estás longe. E já não te reflectes nas estrelas. Desististe?! - Sim?! - Continua a ler.
Tenho conhecido princesas tão mais qualquer-coisa que tu, tão mais isto, tão mais aquilo, tão mais o outro e todas as outras coisas, e tu, afiguras-te somente assim, nesse teu jeito tosco, alegre, disponível, amedrontado. Nesse teu jeito, próprio, desarrumado e revoltoso.
Minha querida Emília, queres a verdade, desde quase sempre, é a única coisa que procuras, e tem sido a única que não tens encontrado, de tanta coisa que já encontraste. A verdade. Logo essa. Sorrateira complicação.
Tenho pena, querida Emília, tenho pena, mas loucos ainda continuam a amontoar-se nas estantes das salas comuns. E a verdade, essa, tem tantas caras...
Boa Sorte.

13.7.11

O Mostrengo

Lança-se o homem ao mar
deixando a alma em terra,
na cabeça leva a vontade,
no corpo leva a entrega.

Viaja o homem em rotas,
jamais antes navegadas.
No estômago sente-se a fome,
na memória, as dores passadas.

Diz-se de cá, adeus ao homem
e os olhos tomam-no certo,
mas a mão repete o aceno
e gesto perde-se no tempo.

Viram-se-lhe então as costas,
jamais tornando ao cais.
Lá longe o horizonte,
cá perto os dias banais.

Quem diz adeus não volta
quem acena não voltará,
ao sol secam-se as lágrimas
e o vento notícias trará...

17.6.11

Talvez por ter visto um filme muito cheasy, talvez por ser a última vez que te vá ver, talvez por serem as últimas semanas aqui, talvez porque ainda que passes nesta que foi a minha rua, e batas a esta que foi a porta da casa onde eu vivi, não me encontrarás mais encostada à ombreira para te mandar entrar, talvez porque não te irei fazer mais chai, nem cafés, talvez porque não vermos mais filmes no sofá cinzento, talvez porque o gato não me dará mais comichão, talvez porque não haverá mais planos para o fim de semana, talvez porque não haverão mais fotos, talvez porque não haverão mais conversas, talvez porque não haverá mais procura de definições de palavras em línguas que nos são estrangeiras, talvez porque não haverá mais vinho tinto no Pub chique, ou Rosé na sala, talvez porque não haverão mais festas de anos da Francesa no jardim da casa onde que vivemos, talvez porque não haverão mais noites em que me verás bêbeda, ou com frio, ou me darás a mão para um passeio, ou me contarás histórias e me falarás dos tantos países do mundo que já viste. Talvez porque não cozinharás mais coisas que me são estranhas ao paladar, mas não te o são a ti, talvez porque não me ouvirás mais a falar do meu país, talvez porque não me contarás mais os teus planos do próximo verão a escalar montanhas, talvez porque não te rirás mais da minha mochila com insígnias, talvez porque não me mandarás mais mensagens, ou me tocarás no cabelo, ou me dirás que gostas dos meus olhos. Talvez porque não te verei mais beber chá com leite, nem tu te rirás de eu beber café de manhã. Talvez porque nunca mais entraremos neste choque de culturas em que nos deixamos embrenhar... Nós até sabíamos que ia haver um fim, até sabíamos, mas quem é que ligou? Ele esteve (sempre) lá, e está agora ainda mais presente. Mas talvez porque nunca nos importámos, a liberdade era tanta. E agora o fim dorme comigo. Mas eu sorrio-te, do alto da angustia de te dizer adeus, sorrio-te porque me fizeste feliz, e aceno-te para te agradecer, e viro-te as costas para te recordar encostado à mesma porta, à qual tantas vezes também eu me encostei. Tu já não vês, mas parto com chuva nos olhos, e sorrio-te no entretanto, guardarás de mim apenas a fotografia mental de uma partida alegre, jovem, correcta. O resto, só a mim dirá respeito, e tu, terás sempre uma festa da aldeia qualquer onde me viste pela primeira vez...

10.6.11

Promessas de amor, quem as tem?!


Nem nunca sequer me passaram pela cabeça. O amor, aquele, o do Esteves Cardoso, já não é o que era, nem nunca o foi, levo-me a crer.

- Estar chateada com o amor?! - Não, nunca. Como me poderia eu chatear-me com o amor, logo com ele. Não. Com o amor, nunca me hei-de chatear. Com as pessoas, sim, talvez. Com o amor não. Que culpa terá o amor, de ser mal usado, entendido, pouco respeitado? Não, idiotisse seria culpar o amor pelas atitudes do Homem. O amor, nada tem a ver com maus fígados, paciências limitadas ou até mesmo testas franzidas.

Mas isto, pouco até tem a ver com o amor, aquele, o do Esteves. Pouco tem a ver, porque aquele, o amor do Esteves, pouco terá a ver com-nós. Com esse amor, nunca me chatearei, contigo, talvez. Ridículo seria que me chateasse com outra coisa qualquer; circunstâncias, ventos fortes, desamor, amor, trovoada... Porque, tu, ou até eu, é que não estamos em sintonia. Mas estar(mos) em sintonia, nunca sequer me passou pela cabeça.

São coisas. Às vezes sorris-me e está tudo bem, e às vezes sorris-me na mesma, mas não está tudo bem. Se calhar sou só eu, ou se calhar és só tu, na verdade, somos só nós. E sermos só nós já engloba muita coisa. Mas sermos outra coisa qualquer que não nós, nunca sequer me passou pela cabeça.

Mundos diferentes? Sim conheço. É como o amor do Esteves, nunca ninguém o viu, ouviu, ou sentiu (ou terão sentido?!), mas sabem que existe. Eu também sei que existe. Tu, sabes que existe?! Sabemos que existe, mas nunca o sentimos (ou terás sentido? ou até eu, terei sentido?!). Mundos diferentes? - Absolutamente. Olho-nos tantas vezes, e em nenhuma delas encontro pontos comuns (que é isso de pontos comuns?!) - sinceramente, estou-me pouco importando para isso. Mas levar-te mais profundo na alma, ou até, talvez, no próprio corazção, foi coisa que nunca sequer me passou pela cabeça. - Porque?! - Mundos diferentes (mas de mãos dadas funciona(m) bem).

5.6.11

Crónicas de Cov #7


Em casa de estudantes o açúcar é de todos. Não há cá mariquisses. Para as outras coisas há, mas para o açúcar não! Na door 59 também não há cá mãezinhas de ninguém, se os iogurtes são teus e as maçãs são minhas, nem eu te como os iogurtes nem tu me comes as maçãs, não há cá trocas, tudo etiquetado com os nomes próprios de cada um (ideia da Alemã), para não dar margem a dúvidas. Ora eu quem nem gosto das sopas chinesas da Francesa de Paris, porquê que as havia de comer?! Mas etiquetamos tudo na mesma. O que é bom por causa do leite: aqui é como se vêem nos filmes, aqueles pacotes de leite esquisitos de plástico que parecem garrafões de água, eles chamam-lhes "leite fresco", ora nós, orgulhosas europeias, já nos basta a má comida, não precisamos de leite a saber a meias podres também. E como que a remediar a situação, já que o leite disfarça o mau sabor do café, encontramos quase que por milagre pacotes de leite "normais" daqueles de cartão com o desenho da vaca, que até estão na secção das massas no supermercado, vá-se lá saber porquê... Mas adiante, posto isto, existem sempre quatro pacotes de leite verdes com a dita vaca, na prateleira do frigorífico. Mau resultado. E vai daí, bem que a Alemã se lembrou que se calhar, era melhor então metermos o nome nas coisas. Remédio santo. Nunca ninguém se chateou, e nunca ficou o leite abandonado sem saber a quem pertencia, foi um contentamento geral. O detergente da loiça, o papel higiénico, os sacos do lixo, todas essas coisas mundanas, são comprados por quem calhar, e meticulosamente apontados numa lista que em tempo de saldar dívidas será apresentada às demais que pagarão o que devem cêntimo por cêntimo, mas o açúcar, o açúcar é de todos! Todos o compram, ninguém o paga. E nunca houve aborrecimentos. Volta meia volta já se houve alguém dizer - where is the sugar?! - e o sugar tá sempre somewhere perdido entre a sala e a cozinha. Em casa de estudantes, nesta casa, em particular, come-se sempre diferente, a horas diferentes, com modos diferentes, a horas diferentes, mas o açúcar é universal. Seja no Chai, seja no Yoggi Tea, seja no Coffee ou no Capuccino, o açúcar cá de casa não conhece fronteiras, barreiras ou adversidades. Usa-se e abusa-se e não é fiel a ninguém em específico. Cá nesta casa de estudantes em terras de sua majestade, o açúcar, o açúcar é de todos!

4.6.11

Crónicas de Cov #6


Em casa de estudantes, há sempre quem se perca no branco das paredes. Durante anos e anos, vidas até, vêm de toda a parte e assentam aqui. Os que chegam depois dos que chegaram antes (que também houveram de chegar depois de alguém que chegou antes - e assim se faz o ciclo), como eu, pela primeira vez (chega-se sempre pela primeira vez), deparam-se com o vazio de uma habitação medonha. E o choque, inicial, não é coisa bonita de se sentir. O espanto, do que se vê, ao abrir-se a porta da frente, pela primeira vez, para depois seguir o trilho do quadrado que lhe fora destinado, é um bater forte no coração. Não pela casa em si, que será habitada (novamente) durante os próximos nove meses, mas por tudo o que isso significa: Liberdade - em todos os melhores e piores sentidos poderei dizer que me senti livre quando cheguei, pela primeira vez, aqui. Senti-me até livre de mais, tão livre que tive medo - O largar tudo à aventura durante um ano é coisa corajosa de se fazer. Eu pessoalmente, não me acho corajosa, mas tinha um sonho, e vim cumpri-lo. Com falta de coragem ou não, voltei costas à vida, e dei asas à vontade de "conhecer" alguma coisa nova no geral. Ridículo será dizer que estava preparada para isto. Não estava de todo, nem para a mais mínima adversidade, e o pior, não tinha sequer consciência disso. Nunca me hei-de arrepender do que fiz, e todos os dias agradeço-me a mim mesma ter tido este sonho - que vem desde pequena, quando via na televisão pessoas a viajar por ai - mas foi como se diz um tiro no escuro, que hoje já me fez ser melhor, não tenho dúvidas. Acho sempre esta situação hilariante, temos um sonho, e vai na volta acha-mo-lo, mas depois, já dentro do sonho, apercebe-mo-nos que provavelmente era um sonho um tanto ou quanto grande, o que fazer? - Crescer com ele. Não há outra maneira de fazer isto, temos então que nos tornar maiores do que o sonho, custe o que custar, dê por onde der.
Eu escuteira desde sempre, bem que me habituei ao peso da mochila às costas, que foi sempre aumentando com a idade, a desenverdar mato por esses montes e montanhas afora, e às vezes, até quando nos chovia granizo a meio da noite escura, e nós ainda a meio do caminho, lá continuava-mos ensopados até aos cabelos, com um sorriso na cara. Ora, a mim, atravessar ribeiras, caminhar com chuva, pular serros, construir mesas, fazer nós, esfolar os joelhos, ou passar fome em campo, nunca se afigurou de todo um problema, pois sabia, de consciência tranquila, e sorriso grande, que ao chegar a casa, ainda que sem conseguir andar, tal eram as dores, levava o espírito cheio, e isso, sempre me bastou para continuar a fazer as mesmas caminhadas, a sentir as mesmas dores, a passar a mesma fome.
Chegar aqui, foi quase o mesmo. Em vez da mochila às costas, trazia uma mala com 20kg de vida lá dentro, e em vez das botas de montanha, trazia uns Vans rotos. O princípio foi o mesmo: a alegria do início - onde ainda não há bolhas nos pés, nem joelhos esfolados, nem chuva em cima da cabeça - tive mal, vim logo para um dos sítios mais chuvosos de todos - irónico?!
Se houver por aí escuteiros que leiam isto, saberão certamente, e partilham-no que durante um Raid a frustração pode ser tão grande que a vontade de desistir passa-nos então pela ideia - para isso existem os carros de apoio que vão sempre perguntando se está tudo bem... - eu, nem melhor nem pior escuteira do que os outros todos, muitas vezes em Raid me passou isso pela cabeça, o desistir: alturas em que a frustração era tão grande, e as dores tantas, e a mochila tão pesada que acreditava que não iria chegar ao fim do trajecto. Durante todos os Raids que fiz, deparei-me sempre com estes dois pensamentos antónimos: o desistir e o continuar. O desistir significava o fim das dores, de todas as dores, mas a perda da alegria de chegar. O continuar, significava o agravamento das dores, mas o orgulho de ter percorrido todo o caminho em equipa e ter cumprido a meta. Em todos os Raids que fiz, nunca me lembro de ter desistido de nenhum, não por ser forte, porque muitas vezes fiquei para trás a passo lento, mas por querer sentir a alegria do chegar. Uma alegria que preenche apenas quem chega, e essa alegria, era tão forte de se sentir, de se partilhar, de se acolher, que foi sempre ela que me moveu.
Aqui, houve momentos, que me desencontrei dessa alegria. E chorei, e quis desistir, e queria mesmo. Tantas vezes questionei até o sonho, até a minha preparação, até a minha vontade. Nunca se afigurou fácil, mas nunca pude desistir, embora o tenha desejado. Deixei-me muitas vezes ir abaixo, e desejar estar noutro sítio qualquer, com mais sol, com pessoas mais quentes, com mais alegria. Mas estava aqui, e aqui iria continuar. Agora, tenho corrigir as quedas que tive durante o ano, os momentos em que chegava a casa cansada de falar algo que não me era familiar, cansada de ver cabelos loiros, e vestidos de alças com 12º negativos, cansada das falsidades de todos os sorrisos. Depois chegava, e havia sempre uma mão na cabeça, um copo de café quente, uma conversa em pronuncia francesa, e isso sabia-me bem. Aqui, nesta mesma casa, neste mesmo quarto, chorei vezes sem conta, sorri vezes sem conta, cantei, penteei cabelos, escolhi roupas, pintei olhos, tirei fotografias, ri, pulei, dancei, estudei, sofri, recebi colinho, dei colinho, comi cereais, bebi champanhe, celebrei aniversários... Aqui, onde agora escrevo, aconteceu-me uma vida. Uma vida de momentos inesquecíveis, e outros vagos, mas uma vida cheia. Da alegria do chegar, aquela dos escuteiros, não posso falar ainda, ainda não cheguei ao fim, embora já me sinta ter chegado a muitos sítios, mas a caminhada até aqui, ainda que de Vans, não tem sido fácil. Ando a caminhar à quase nove meses, e muita pedra tenho encontrado no caminho. O caminho, acaba não tarda, a chegada já se avista firme. Se chegarei cansada, em dúvida, e levo a mala mais pesada, pois como ele dizia, as pedras do caminho, guardei-as todas.

Crónicas de Cov #5


"O meu país tem uma coisa que o teu não tem" - disse-lhe ela - As amendoeiras em flor nos primeiros dias de Fevereiro. Ele sorriu, mas nunca havia visto amendoeiras em flor, nunca havia visto sequer amêndoas com casca. Ela pensou o quão triste seria aquilo, viver num sítio tão vasto, e nunca ter vivido para ver amendoeiras em flor. Ele disse-lhe que ali não cresciam, que a terra era má. Ela sorriu com tristeza, não compreendia como era possível viver feliz assim, numa terra tão medíocre de vida. Sorriram um ao outro, na ternura firme dos estranhos que se amam, completos de nada terem em comum. Ela era do Inverno, ele não.

27.5.11

Tenho os pés frios dentro das melissa que chegaram por encomenda ai há uns dias. Não é por ter os pés dentro das melissa que estão frios, é por estarem frios ainda que não estejam dentro de nada. A luz do candeeiro Jansjö do Ikea incide directamente no meu trabalho escrito nas folhas de papel a entregar Segunda. Passo-o agora a computador, com uma falta de vontade inimaginável. As palavras correm lentas no teclado, e prefiro vir escrever ao blogue. Uma vela acesa na mesa dos DVD's e um copo de vinho, com licor lá dentro ao lado do computador; bebo para saborear a vida portuguesa, e para me esquecer da dor que é escrever por obrigação. O quarto está um gelo, e o aquecimento ligado no cinco, nunca percebi este país. Quase Verão e cinco graus lá fora. Frio. Diz-se. O meu amigo M. vem-me falar, mostra-me um livro recente de alguém que foi à Índia. Pede-me para ler o comentário sobre o livro, fizera-o ele, leio-o, porque o M. me o pediu. Interessante. Fico com vontade de ler mais. De ler o livro. Peço ao M. que me o mande, por correio, chegará em breve. O M. concorda, mandar-mo-à. O J., colega meu da faculdade, também me mandou no outro dia um livro que escrevera, chegou depressa. Bom livro. Dói-me o ventre, as costas, a cabeça. Até a alma me dói. Mas sei que é só acabar de passar o trabalho, passar esta noite, e amanhã passará tudo. Ele vem-me buscar. Vamos a algum lado. Boa. Gosto de ir a algum lado. Quando não há planos, algum lado pode ser qualquer coisa, qualquer coisa agrada-me, essa noção de não ser nem uma coisa nem outra, agrada-me, sempre agradou. Sobre a minha cama, além de roupa enchuvalhada, tenho a capa do ederdon que a M. me deu, comprou-a no Ikea de França o ano passado, decidiu dar-ma, não gostava dela, fazia-lhe lembrar a velha universidade, más recordações. Acredito que foi em troca do casaco vermelho que lhe dei, tinha-me-o comprado a minha mãe em Espanha, lá pela altura do Natal, era bonito, mas assentava-me mal. E uma francesa sempre há-de precisar dum casaco vermelho, é um daqueles clichés que gosto sempre de imaginar, fiz-lhe juz. Melhor assim; ela sem uma capa de ederdon do Ikea francês que lhe trazia más recordações, e eu sem um casaco espanhol vermelho que me ficava largo nos ombros, ficámos as duas sem algo relativamente mau, para ficarmos com algo relativamente bom, ainda bem que os azares de uns são as alegrias dos outros, fora o mundo todo assim. O relógio dá as nove e qualquer coisa, oiço alguém na cozinha, volto ao trabalho.

4.2.11

(...) a carta cheirava-lhe a algo, a algo que lhe lembrava o cheiro alegre e desimpedido daquela doce infância escondida para lá da própria memória, daquela já longe, já tremule memória.

12.1.11

a minha dor de costas é produto do meu cansaço e da minha cama velha, do meu colchão velho com molas que rangem ao mais pequeno toque. a minha dor nas costas é falta de um abraço, ou de um copo de vinho tinto, ou da caldeirada de peixe feita pelo meu pai. a minha dor de costas tem a ver com já não ouvir os passos da minha mãe em direcção ao meu quarto para me dizer boa noite filha, e já não os ouvir há muito tempo. a minha dor de costas tem a ver com não estar no átrio da minha faculdade a falar mal da minha faculdade e a querer sair de lá o mais depressa possível. agora saí de lá, já saí de lá e estou aqui. e estou aqui muito bem, não fosse esta incrível, irritante, mesquinha, insuportável dor de costas. e com ela, a dor de braços, a dor de músculos, a dor de corpo todo. a minha dor de costas tem a ver comigo, que não faço exercício físico, nem fiz a depilação. a minha dor de costas tem que ver com o capitalismo no mundo e com os meus pêlos nas pernas. Mas felizmente estou no estrangeiro e ninguém me vê as pernas, porque ninguém me baixa as calças. fui eu que não deixei; doíam-me as costas. a minha dor de costas tem a ver com eu estar calma e tranquila e esta noite ir dormir com o meu macaco lindo de peluche, não por ser lindo, mas por ser um macaco, e meu.